Cronista no salão de beleza


E, de repente, eis o cronista num salão de beleza, acompanhando a esposa, informando que iria demorar um pouco. Fiquei meio tonto em ver tantas mulheres cuidando de seus cabelos, de suas unhas, de seus pés, de seu rosto, que a beleza ainda é a grande meta, sobretudo para o outrora sexo frágil. Mais de cinquenta mulheres, de tesoura na mão mexendo nos cabelos das clientes, que dormiam ou faziam que dormiam.
E vi como é difícil o trabalho dessas profissionais da beleza, sem esquecer os homens, também muito eficientes no seu ofício de embelezamento. Quase caí da poltrona, que me ofereceram, quando vi uma frequentadora do salão, rica dos anos, sair inteiramente rejuvenescida. E me veio aquela recomendação de minha mãe: “meu filho, velhice quer trato”. E ninguém melhor do que ela cumpriu este preceito. O relaxamento com a própria pessoa é uma ofensa à Natureza.
Mas voltemos ao salão. Vi um homem, por sinal muito bem vestido, cochilando, enquanto a manicure cortava-lhe as unhas. Pelo jeito, tratava-se de um deputado ou um executivo. Curioso é que parecia dormir. Decerto era solteirão, viúvo ou desquitado, porquanto uma mulher ciumenta não o deixaria assim, mesmo cochilando.
Ainda bem que levei um livro para aproveitar o tempo. Mas diante daquelas dezenas de mulheres, preferi ficar olhando o espetáculo, pois gosto muito de observar as pessoas. E pus-me a pensar na transitoriedade da vida.
Quantas pessoas desejando ser belas, principalmente as mulheres que têm horror à velhice. E como se preocupam com o cabelo. Ainda bem que nunca houve uma moda careca. Quando uma mulher é olhada, se sente observada (e ela vê pelos poros), graças à sua inata intuição, a primeira coisa que faz é dar um jeitinho, uma sacudida no cabelo.
Vieram me oferecer um Capuccino, que adoro. Gentileza da casa. E cadê minha Alaurinda? Certamente está em outra secção. O salão de Anthony é imenso. O deputado já se foi com as unhas dos pés bem cortadinhas. E viva a aparência. Somos julgados por ela. E quem me ajuda a aparar as unhas dos pés, estes adoráveis pés que me levam às caminhadas, é minha Lau.
Eu corto meu cabelo aqui perto, no salão de beleza “Semper Bela”, com o meu cabeleireiro Josias, um grande conhecedor da Bíblia, mestre na tesoura, nascido em Riacho dos Cavalos
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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