A saída de Terceiro



Não me surpreendeu a morte dele, como também não me surpreende a morte dos outros. É da lei que assim seja. Ninguém escapa à sua dura inexorabilidade. Agora a reflexão a fazer é esta: o que fez ele da vida e na vida? Há quem diga que ele foi para o céu, outros para o inferno, e, por fim o purgatório. Depois há aqueles que acreditam que tudo vira pó, nada mais resta. E surge a pergunta, que adianta a vida seja digna ou não, se não há nada, nem ninguém para nos julgar?
Estas reflexões me chegaram com a notícia do falecimento do meu amigo Dorgival Terceiro Neto. Um homem que sempre me deixou uma excelente impressão e também uma lição. Terceiro Neto foi um homem sereno e sério, que fez de sua vida uma obra de arte.
De poucos sorrisos, a constante nele era a seriedade, o sentimento de responsabilidade. Inimigo implacável da corrupção, sobretudo na política, a qual exerceu com muita dignidade. Seja como governador, seja como prefeito, ele sempre deu um exemplo admirável de honestidade.
O bem humorado filósofo grego Diógenes, discípulo de Sócrates que fez da pobreza extrema uma virtude, chegando a “morar” num barril, segundo a História, vivia pelas ruas de Atenas, com uma lanterna na mão dizendo-se “em busca de um homem honesto”, e isto em plena luz solar. E não o encontrou. Tenho certeza de que se o nosso Dorgival Terceiro Neto estivesse por lá, o filósofo não teria perdido o seu tempo.
Certa vez, faz alguns anos, encontrei-o casualmente em São Paulo, um pouco irritado com a deficiência auditiva. Tinha vindo do consultório médico. Abraçou-me, fez referências elogiosas às minhas crônicas, e saiu. Nunca esquecerei aquele cordial abraço e seu sereno meio-sorriso. O encontro comoveu-me.
Terceiro Neto saiu da vida pública em paz com a sua consciência, E, sem dúvida, é essa paz que lhe dará o verdadeiro paraíso.
Escritor, membro da nossa Academia de Letras, o nosso Dorgival foi um telúrico por excelência. Amava a sua terra como ninguém.
Nunca me esqueci da imagem daquele jovem casal de noivos transitando pelas ruas da cidade. Ele e Marlene... Estavam em plena lua de mel. Terceiro sempre foi um cavalheiro, homem de boas maneiras, que impunha respeito. Um homem em quem poderíamos confiar cegamente.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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