Aquele homem...


Desta vez Paris estava molhada, gelada e calada. Muita gente transitando pelas ruas, apressada, que o frio está de gelar os ossos. Mesmo assim, a cidade sorri o seu sorriso de luz. Ninguém estaciona nas ruas para um bate-papo. Gente pra cá, gente prá lá. E eu na mania de reflexão fico a imaginar coisas. A vida é uma grande incógnita. Cada pessoa um enigma desafiando decifração.
Paris! Como esta cidade é panorâmica, aberta, escancarada. Que diferença de Londres! Londres não tem uma paisagem como estas.
Eis-nos caminhando no frio. A Torre Eiffel também morrendo de frio, sem ninguém por perto. Até a grande passarela da cidade, que é a Avenida Champs Élysées, está com pouca gente.
Ora, ora, mas o que é que eu vejo agora, dentro da cidade molhada? Um cego. Um homem muito bem vestido, como se fosse para uma solenidade, caminhando com a ajuda de uma bengala. Ia num caminhar reto de quem sabia para onde ia. Cego! Cego em Paris. Esteja no inverno, esteja na primavera, para ele é indiferente. Mas o que mais me chamava a atenção era a sua elegante postura. E eu e você com a vista boa, ainda reclamando da vida, e com esse orgulho besta. Ah como, às vezes, esquecemos de ser gratos à vida...
Mas, para onde vamos com este frio? Restaurante! E no inverno todos os restaurantes de Paris estão lotados. Germano anuncia que, amanhã, estaremos na Ópera de Paris, o Palais Garnier, um dos lugares mais elegantes da cidade-luz. E o que é que vai ser encenado naquele tradicional teatro? A ópera de Ravel, “O menino e os sortilégios”, cujo libreto foi escrito por Colette. Que bom ter olhos sadios para ver Paris. O homem cego não irá ao Teatro. E para onde ele iria, naquele caminhar reto, segurando sua elegante bengala?
Não sei, não. Só sei que o fato me impressionou. A verdade é que olhando o sofrimento alheio, a gente sofre menos.
E vou terminar a crônica. Basta de tantas lágrimas e de tanta chuva. Noutra crônica falaremos de coisas mais alegres. Ah, como ficou na minha memória aquele homem, sozinho, dentro da noite gelada e molhada... Cego em Paris.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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