A terapia do assobio


Conheci, na minha infância, uma senhora que assobiava que era uma beleza. Dir-se-ia que assobiava “como um homem”. Ela se chamava, se não me engano, Maria Caçador. Era forte, sempre muito alegre, e, vez por outra, haja assobio.
O assobio, como o sorriso, é uma excelente terapia. Quem assobia está de bem com a vida. Eu gosto muito de assobiar. Vez por outra ensaio alguns temas do primeiro movimento da Sinfonia Pastoral, de Beethoven, o começo da Sinfonia nº 8 de Bruckner, ou Concerto para Violino e Orquestra de Subelius
E, aqui para nós, modéstia à parte, sou bom de assobio. Agora mesmo estou me lembrando de um capitão, no tempo em que eu estava no Exército. Não estou me lembrando de seu nome, só sei que o homem assobiava a todo instante. Assobiava como respirava. E que simpatia de homem. Sempre de bom humor. Nada de cara dura.
Mas, deixemos o capitão com o seu assobio, a sua simpatia e seu constante bom humor e voltemos à crônica.
Na minha família houve pouco assobio. Minha mãe, vez por outra, até que ensaiava um. Lembrar que ela, quando solteira, tocava flauta, e seu pai era clarinetista. Eu tive a quem puxar. Meu pai, de música só cantarolava o Hino Nacional, ou a modinha chamada Jardineira. Se bem que era louco pela serenata Rimpianto, de Toselli.
A verdade é que o assobio é uma excelente terapia. Não sei se algum desembargador assobia, antes de vestir a severa toga, se um Ministro ou se o Papa já assobiou amenizando, assim, o austero ambiente do Vaticano. E me vem agora a indagação: quem assobia mais, o homem ou a mulher?
Não gosto daquele assobio meio moleque das salas de concerto, porquanto a palma é um modo mais discreto e distinto de aplaudir. Mas, nas salas de concerto daqui... Lembrar que assobio é mesmo que vaia. Por que, então, vaiar um artista?
Hitler não sorria, muito menos assobiava, creio. Acho que Stalin a mesma coisa. Quem assobia deve estar sempre de bem com a vida. As crianças, em geral, não assobiam, já repararam? Os adolescentes, sim, mas já os velhos, muito pouco.
Assobiemos, a vida se torna mais alegre, mais descontraída! Maria Caçador passou a vida assobiando e todo mundo gostava dela.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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