O morcego e a consciência


Perdoe-me a obviosidade (o computador não quer reconhecer a palavra, sublinhando-a em vermelho, mas eu insisto em escrevê-la), Refiro-me à consciência, que é tudo em nós. Costumamos dizer “Fulano não tem consciência”. ”Mentira, todo mundo tem consciência, que é o nosso eu, aquilo que fica dentro de nós, quer aplaudindo, quer censurando. Acho que só o homem tem consciência, o que, justamente, falta nos nossos irmãos irracionais, seja bicho, seja árvore.
Viver em paz com sua consciência é ter dentro de si um paraíso. Muita gente, equivocadamente, fala de um paraíso e de um inferno. Neste último há muito fogo e um diabo espetando a gente com um tridente, ora vejam só... Mas, pensando, metaforicamente, uma consciência torturada pelo remorso é um inferno. Aliás, o verdadeiro inferno. O fogo do remorso é um fogo moral. Então, repetimos: viver em paz com sua consciência é viver num céu.
Por conseguinte, leitor, muito cuidado com a sua vida. Que ela não lhe traga, depois, o fogo do remorso, que se inicia com o arrependimento. Quantos suicídios ocorrem em conseqüência do desespero por conta de um grande remorso? Não há nada pior do que esse “morcego” com o olho vivo em nós. Ora, ora, a idéia de morcego me traz à lembrança um extraordinário poema do nosso Augusto dos Anjos, que tem como título: “O morcego”, em que o poeta, com sua extraordinária imaginação, fruto de sua genialidade incomparável, compara a consciência com um morcego que ele viu, à meia noite, no seu quarto, quando ia dormir. Ele compara o horrendo animal a um olho. E a consciência é mesmo como um olho intimo, de que não podemos nos libertar. Daí o poeta chegar a esta conclusão: ”A consciência humana é um morcego”! Que metáfora admirável!
E esse quarto é a nossa cabeça em que entra o remorso. Portanto, leitor, cuidado com a sua vida, porque, no final de tudo, quando você deixar este mundo, seu encontro é com você mesmo, é exatamente com a sua consciência.
A propósito, li, outro dia, uma lista de definições de felicidade. A que mais gostei foi aquela que disse: felicidade é estar em paz com sua consciência.
E que tal dar uma lidinha no poema de Augusto, um poeta que vale por um enciclopédia e cujos poemas nos induzem a reflexões profundas sobre a vida?  
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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