Morrer de lembrar


Este novo romance de Marília Arnaud, recentemente lançado pela editora Rocco, sob o título “Suite de silêncios”, é um longo monólogo, recheado de profundas reflexões, a que não faltam belas imagens poéticas sobre a vida. Dir-se-ia que o passado segue os passos como uma sombra. E logo no limiar, o texto nos surpreende com este tópico, profundamente filosófico: “E como é doce morrer de lembrar”... Mais adiante esta reflexão: “Não nasci para o esquecimento”. E repete: “o passado é casa sem portas, nem janelas”.
Todo o texto é ao mesmo tempo lírico e filosófico. E como disse, o passado pesa-lhe como uma sombra. Grande é a sua percepção das coisas. Está antenada com tudo que acontece ao seu redor. Mas se fala da Natureza, “de um violoncelo desafinado”, não esquece uma igreja onde um sino morre na solidão.

Repito, o romance é um passeio no passado, que a personagem faz questão de ressuscitar. E daí monologar, isto é, conversar consigo mesma. Um monólogo de muita maturidade. O passado, sempre o passado, como um insistente leit-motiv, é o que caracteriza a sua escorreita e madura prosa.

E que bela definição dada ao esquecimento, que é quem mata o passado: “O esquecimento é um jogo, onde o único adversário é você mesmo”.
É difícil ler o romance de Marília, correndo. Seus devaneios, sua maneira de ver a vida exigem uma pausa, uma pausa para a meditação. Impossível sair das páginas de seu livro da mesma maneira como se iniciou a leitura.

Disse um famoso critico que o grande romance é aquele em que o leitor sai de suas páginas se lembrando de sua leitura por muito tempo. É o caso de Marília com o seu “Suíte de Silêncios”. 
E de repente, esta dolorosa indagação sobre a morte: “Como é espantoso estar vivo! E como é igualmente espantoso saber que logo mais será o nunca mais”. Profunda reflexão, tão profunda como a admissão do Nada. Uma reflexão pessimista de quem não acredita na vida após a morte.
Mas depois dessa prosa exuberante e, ao mesmo tempo inquietante, Marília despede-se do leitor dizendo, sem lágrimas e sem sorrisos:
“Deixo-lhe, aqui, a minha história e tudo que permanece em mim, a minha infância, a casa onde morei, a horta do meu pai, a pureza das estrelas que ele me apontava no céu”.
E eu deixo a crônica, repetindo o que a romancista diz no início do livro: “É doce morrer de lembrar”.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
RECOMENDE AOS SEUS AMIGOS
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

0 comentários

Postar um comentário

Deixe o seu comentário