Templo da sabedoria


Quando me disseram que em Buenos Aires havia uma livraria colossal, talvez uma das maiores do mundo, fiquei ansioso para conhecê-la, pois, se não sabe o leitor, minha cachaça é o livro, que para muita gente talvez não passe de um objeto sem significação maior, ou mesmo de um intruso. Tanto é assim, que uma ilustre dama da sociedade pediu ao seu arquiteto que “pelo amor de Deus, não estragasse a ambientação de seu novo apartamento deixando os livros do marido à mostra, e exigiu que fechasse com portas as prateleiras da biblioteca.
Melhor foi aquele ilustre industrial paraibano, de saudosa memória, que embora bom de dinheiro, nada entendia de livros, livrarias e bibliotecas, a ponto de informar aos mais íntimos que dera à esposa uma “biblioteca de perfumes”... Por incrível que pareça, o fato é verídico.
Mas, cada qual com os seus gostos. Já um Ariano Suassuna adora deitar-se na cama abraçado a um livro. E disse, em entrevista, que jamais faria isso com um iPad.
Ora, ora, mas eu comecei a crônica falando da grande livraria de Buenos Aires, a famosa El Atheneo, que quando assomei à sua porta, fiquei sem acreditar no que via. Um enorme e histórico espaço que já serviu de teatro, com seu ambiente original preservado e milhares de livros por toda parte, muitos deles enchendo os antigos camarotes e frisas daquela antiga casa de espetáculos. Fiquei de queixo caído. E sabe quando se fecha a livraria? Só à meia-noite. E que silêncio! Ali só os livros falam.
Senhores, jovens, muitos deles deitados no carpete, com um livro aberto aos seus olhos, certamente, em gostosa pesquisa. Um deles me pareceu um professor, um desembargador, talvez ministro, não sei. E gente entrando, subindo as escadarias do antigo teatro, num religioso silêncio. A livraria El Atheneo lembra um templo. Templo da sabedoria. E alguns ainda insistem em dizer que o livro vai desaparecer!...
Não há lugar mais propicio à reflexão do que uma livraria. É um verdadeiro templo religioso, Um templo religioso sem barulho...
Mas fiquemos por aqui, lamentando apenas os que ainda não descobriram o prazer da leitura.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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