O Grito no gelo


Como eu disse em crônica, na véspera de nossa viagem a Oslo, andei cortando o meu cabelo, graças à tesoura do meu cabeleireiro Joel, aqui do “Sempre Bela Center”. Como já informei, aquele competente profissional abriu os olhos para o mundo na cidade sertaneja Riacho dos Cavalos, e costuma botar sua cidade nas nuvens, onde há muito sol, muito peixe e muita paz ecológica. Acontece que estávamos com passagem comprada para a terra do famoso pintor Munch, cujo quadro “O Grito” foi vendido, recentemente, por milhões de dólares. É talvez o grito mais caro do mundo. Um grito que não é sonoro, mas que incomoda. Como gosto não se discute, eu não queria ser o autor de O Grito, mas gostaria de ser o autor do concerto para piano, de Grieg, outro famoso norueguês, nascido em Bergen, e cuja casa andei visitando, fato que depois eu conto.
Meu cabeleireiro Joel, decerto, acharia O Grito um negócio para amedrontar menino... O museu onde estão outras obras de Munch ocupou-nos toda uma manhã. Muito freqüentado por um público de alto nível, o que não de é estranhar na capital norueguesa. Todos os quadros do famoso pintor muito bem visitados, reverenciados e estudados pelos visitantes, que não puderam se deliciar com o sol, que não apareceu naquela manhã. Silêncio absoluto apesar do Grito de Munch.
E eu todo embrulhado, ansiando por um short, uma camiseta, uma praia, um beijo quente do sol. O frio era grande, o que me deu vontade de dar um grito, o que seria um escândalo. E imaginei meu cabeleireiro de Riacho, aqui... Acontece quem lá em Riacho só quem grita é o sol.
Oslo é uma metrópole ultracivilizada. Silenciosa, cheia de belos canteiros, bondes lindos e pessoas muito educadas. Não se ouve uma só buzina. Nenhum grito na rua. E o de Munch fica só no museu.
Chamam atenção os modernos bondes. E saber que nossa capital já teve belos bondes para tudo que era bairro... Outra coisa a enfatizar: o poético vôo das gaivotas, fazendo inveja aos urubus que, aqui em baixo, não encontram carniça para matar sua fome.
Quase não vejo jovens pelas ruas, nem no museu de Munch. E Riacho dos Cavalos? Como está longe... Mas em tudo há a sua beleza. Beleza na quieta Mona Lisa, que bem que gostaria de soltar um forte grito diante daquela invasão de turistas do mundo todo olhando para ela...
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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