Riacho ou Oslo



Pousou-me, na imaginação, uma interrogação. Afinal, devo viajar para Riacho dos Cavalos, aqui no nosso sertão, ou para Oslo, na Noruega, onde reina o frio, ou melhor dizendo: o gelo. E ao que me informam são belos os famosos fiordes, suas montanhas geladas, onde não há vida, mas muito silêncio. Suas vivendas milionárias, isoladas, cujas portas estão permanentemente fechadas devido ao vento e ao frio.

Opção da maioria da nossa turma. Que fazer? Vamos a Oslo, com sua neve e com sua população, altamente civilizada.

Mas meu cabeleireiro, que é de Riacho dos Cavalos, insiste para que eu visite este município, que se desmembrou de Catolé do Rocha, mas que tem muita coisa para mostrar ao visitante, ou melhor, ao turista. Tem montanhas lindas, tem rios e açude, onde se pesca um gostoso peixe.

“Olhe – diz o cabeleireiro – se o senhor for a Riacho não se arrependerá. O céu todo azul é uma beleza. E à noite, nem é bom falar. As estrelas ficam bem perto da gente. E a vontade é pegá-las, como se fossem frutos luminosos”.

Gostei da comparação do rapaz. Que além de cabeleireiro é poeta. Nada mais belo do que um céu estrelado, pertinho da gente.

E bom mesmo é o povo. Gente humilde, respeitadora, que cumprimenta a gente, sorrindo. E eu fiquei conversando com os meus botões, será que no primeiríssimo mundo, lá de Oslo, eu vou encontrar gente cumprimentando os outros? Evidente que não, cronista. Isto é costume de cidadezinha do interior, onde todos se consideram irmãos. Lá na Noruega, as pessoas são civilizadas, e pessoas civilizadas passam pelos outros indiferentes como máquinas.

“Mas o gostoso - informa o homem - é a pesca. O peixe não vem de um supermercado, mas do anzol. Peixe da melhor qualidade” - conclui.

E prossegue: “o sol de Riacho é o mais belo do mundo. Um sol que alegra a gente. Fiquei pensando. Em parte meu cabeleireiro tem razão, nada mais triste do que um lugar sem sol... O sol é o sorriso de Deus.

E eis que o corte ou melhor, que a raspagem do cabelo chegou ao fim. Olho-me no espelho e a imagem que está lá parece interrogar: Vai a Oslo ou a Riacho? Prefere ouvir um concerto no Grieg Hall ou uma afinada sanfona, sob um céu cheio de estrelas?

Saio monologando: o diabo é quem vai fazer tal pergunta aos meus companheiros de viagem, cujos pés estão pisando quase o mundo todo, menos em Riacho...

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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