A cegueira da indiferença

Para mim, a pior cegueira não é a dos olhos e, sim, a da indiferença. É triste quem não sente emoção diante de uma paisagem, quem passa indiferente diante de um jardim, de um nascer do sol, de um crepúsculo, de um mar com o seu sorriso de espumas, de uma montanha, símbolo de transcendência, de um voar de pombos, de um flamboyant florido, de ... Basta, leitor, a verdade é que a vida é um espetáculo constante, uma explosão de luz e cor. E tudo depende de nosso olhar e do nosso sentimento de beleza.


E saber que só o homem se comove diante de um espetáculo da Natureza. Só o homem acredita num ser superior, num deus, num criador desse Universo estupendo, que tanto comoveu o velho Pascal...


Disse que só o homem, já que, ao que nos parece, o nosso irmão irracional, o gato ou o cachorro são incapazes de se extasiar diante do belo. E o escritor Anatole France disse, certa vez, que nunca viu o seu estimado gato contemplando as estrelas ou em estado de oração.


E estou me lembrando agora mesmo, confirmando o que Anatole disse, de um campo, lá na Escócia, quando íamos de Liverpool para Edinburg, com seu numeroso rebanho de carneiros e ovelhas, todos eles com o focinho para o chão sem jamais elevar os olhos para o firmamento azul.


Mais à frente, outro rebanho, desta vez de gado, do mesmo jeito: todos olhando para o chão, só comendo, comendo, nenhum olhava a paisagem deslumbrante daquele céu brilhante com o seu balé de nuvens.


Assim são os homens. Poucos valorizam a riqueza dos olhos. Têm-nos, mas é como se não tivesse. No entanto, é do olhar que nasce a reflexão. E é a reflexão que nos leva à sabedoria. E é a sabedoria a maior riqueza que nós temos. A ignorância é pior do que um câncer...


Mas continuemos com a crônica confirmando o que dissemos no início. A pior cegueira é a indiferença, que nasce da ignorância.


Outro dia, na calçada em frente ao nosso condomínio residencial, plantamos em volta de quatro palmeiras algumas mudas de flores. Pois não é que não passaram dois dias e todas foram arrancadas, roubadas?... Mas, curioso é que não me zanguei com o fato, pois, pior do que o furto seria a indiferença. Quem levou os pezinhos de flores para casa, decerto o fez atraído pela beleza. E quem é atraído pelas coisas belas da vida não é inteiramente mau. Pior é ser insensível, e o que eu mais detesto é a cegueira da indiferença. Não esqueçamos que Jesus já dizia "olhai os lírios do campo e as aves do céu"...

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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