Encontro inesquecível

Faz algum tempo, eu o vi, de pé, na porta de entrada da antiga loja Mesbla, ali lá na Lagoa, simples de traje e de espírito, mas sem perder a elegância, quando tive a coragem de abordá-lo: "O senhor é o maestro Eleazar de Carvalho?" Num meio sorriso, ele apenas disse: "Sim, às suas ordens".

Depois de ligeira conversa, saí. Admirável a sua postura. Um homem simples, e, ao mesmo tempo, austero. Estava ali, na planície, um deus que eu só avistava nos tablados, nos concertos de nossa sinfônica, lá no Espaço Cultural, ao tempo do governador Burity, um homem muito sensível à musica erudita e que fez questão que o nosso povo se educasse musicalmente.

E o maestro estava, ali, numa indumentária simples, como se fosse um homem comum. E muitos que iam entrando na loja jamais imaginavam que passavam diante de famoso regente, nascido no Ceará. O Ceará tanto exaltado pelo nosso Luiz Gonzaga, sobretudo naquela música que terminava dizendo: "No Ceará não tem disso não".

O Ceará teve Eleazar de Carvalho e só isso é o bastante. Mas o grande maestro terminou se celebrizando nos países civilizados para alegria e honra do povo brasileiro. Ele não se julgava um regente perfeito. Tanto é assim que sempre dizia, em tom de advertência: "A perfeição é o início da decadência".

Fecho os olhos, me desligo do meio ambiente, esqueço a poluição sonora desta cidade, e vejo, através da imaginação, a majestosa fisionomia do grande maestro regendo a Nona Sinfonia de Beethoven, lá no Espaço Cultural, que Burity construiu para espanto dos negativistas.

Ver e ouvir Eleazar de Carvalho era um privilégio. E quanta dignidade profissional. A Nona, regida por ele, decerto, encantaria o próprio Beethoven.

Eleazar de Carvalho tinha cultura, postura e compostura. Seu sorriso era discreto. Todos os obedeciam, reverenciavam-no. Não era um homem que estava no tablado, de batuta em punho. Era um deus, amado, admirado e, sobretudo, respeitado.

E fica, aqui, uma sugestão. Que tal a nossa Sinfônica prestar-lhe uma homenagem? Que o Ceará fique se mordendo de ciúme. O gênio não pertence a ninguém. É de todos, assim como o ar que respiramos.

Não me esqueço daquela minha pergunta: "o senhor é o maestro Eleazar de Carvalho? E ele, na maior simplicidade: "sim, às suas ordens".

E para terminar, lembremos que o famoso maestro elevou a nossa sinfônica às alturas, tornando-a uma das melhores do país.

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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