Carnaval e Bacalhau

A vida é assim, uns correndo para o carnaval e outros correndo do carnaval. Cada um, portanto, com os seus gostos. E já que eu não vou atrás do trio elétrico, carnavalescamente falando, eu já morri.

Que beleza ter morrido para Momo, o papai Noel da folia. E haja barulho ensurdecendo os que não caem na gandaia. Quer isto dizer que o cronista vai para uma praia?... Que praia, leitor. O carnaval é o primeiro a ir para lá. A barulheira vai abafar o doce roído das ondas. E o que terá de bêbado no volante... Se o carro for movido a álcool, o mesmo acontecerá com o motorista. Foi-se o tempo em que a praia era um lugar para o repouso, para a reflexão, para o silêncio.

Mas afinal, cronista, para onde irás nos dias carnavalescos? Para o cemitério? Também não. Pretendo passar o carnaval fora do nosso bem amado país, que ainda dorme em berço esplêndido, ao som do mar profundo.

E quem está dizendo para onde eu pretendo ir é o meu paladar. A boca já começa a se encher de saliva. Aliás, comer faz parte do turismo. Comer aquilo que na nossa terra não tem. Outro dia, um médico amigo meu, que vive grande parte de sua vida dentro de um avião e do consultório, me informou, outro dia, que comeu uma capivara que foi uma beleza. E que ainda hoje sente o gosto dela.

E Paris? Não quero falar de seu belo rio, nem dos restaurantes do Quartier Latin, e muito menos da Torre Eiffel, mas, sim, da baguete, seu pão gostosíssimo. Aliás, a França é famosa pelo seu pão, sem esquecer o queijo de leite de cabra.

Mas voltemos ao bacalhau, tanto o de Lisboa como o do Porto são famosos. Já provei o de Lisboa, mas o de Porto vou conhecer agora, durante a folia momesca aqui no nosso Brasil.

Acontece o que mais me está interessando nesta visita a Porto, não é o seu famoso bacalhau, e, sim, uma livraria que, ao que me informam, é a maior do mundo – a livraria “Lelo”. E vou entrar nela com a mesma alegria de um peixe quando é soltado no mar.

Não esquecer que livro é o melhor dos alimentos. Ele sacia a fome da ignorância, mata o apetite da curiosidade. E o resultado é a sabedoria, a maior riqueza que temos.

Mas vamos terminar a crônica não esquecendo que o nosso e insubstituível alimento é invisível, não tem sabor e ainda é gratuito. Referimo-nos ao oxigênio, que respiramos sem dar conta de sua importância. Afinal, viver é respirar. E viva o carnaval com bacalhau.

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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