De dar água na boca...

Outro dia, me lembrei de uma coisa de dar água na boca. Sim, leitor, estou me referindo à ceia de outrora, lá no sítio onde morávamos, um verdadeiro paraíso no qual passei a minha adorável infância e que produzia quase todas as frutas do mundo.


E o bom daquela época era a ceia, que começava, pontualmente, às seis da tarde. Curioso é que ninguém chegava atrasado, com exceção do caçula, que era eu. A ceia era um ato muito sério, chegando a ser solene. Na cabeceira da mesa estavam o pai e a mãe. Seguia-se, depois, o filho mais velho. A hierarquia doméstica era muito respeitada. Mas, como toda regra tem exceção, o caçula também podia ficar ao lado dos pais.


E iam chegando os pratos. O silêncio dominava. Se havia conversa era baixinho. A fome era grande. Começava-se pela sopa. E que sopa! Mas, ninguém se lembrava de agradecer à cozinheira, a quem se devia a refeição. Aí eu me lembro de Einstein, que disse, um dia, que o personagem mais importante de sua vida era a cozinheira, pois que preparava a sua comida, mostrando, assim, o importante valor do alimento. Mas poucos pensam nisso. Em geral, somos muito ingratos aos que nos servem.


Depois – aí eu já começo a encher a boca d'água – chegava o mungunzá quentinho. Que gostosura! Uma verdadeira sopa de milho. Em seguida, vinham a macaxeira, cuscuz, o inhame (que com manteiga era uma delicia). A batata doce, a tapioca, o beiju, o pão francês (que pão!), fruta-pão, que também não dispensava a manteiga. Manteiga Lírio ou Turvo. Ah – já ia me esquecendo – e o jerimum, o jerimun caboclo? Outra delícia.

Será que está faltando alguma coisa? Espere aí. Sim, havia também os doces. Doce de goiaba, doce de... Ah, leitor, basta.


E lembro que naquela época, nada de televisão. Toda a atenção estava para a ceia. Nada de conversa sobre crimes, política e outras negatividades. A ceia tinha tudo de ato religioso. Uma paz gostosa caia sobre nós. Ninguém se levantava da mesa e saía da sala antes dos pais. Só o caçula tinha esse privilegio.


Bebida só o café. Era uma alimentação super sadia. A ceia. Será que ainda existe? Não. Hoje há mais o jantar. O pesado jantar que provoca arrotos, azia e outras coisas...

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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