Confissões do mar

Não sei. Só sei que contemplando o mar, uma manhã dessas, me veio uma profunda compaixão daquele deus enjaulado e solitário, vomitando suas espumas e se divertindo com aquele vai e vem das ondas. E monologuei: o mar deve ter suas invejas. Inveja dos rios que correm, seja através das cidades, seja através das florestas.


E, aqui para nós, não há coisa mais gostosa do que correr ou passear. Horrível não poder sair do lugar. Tanta coisa para se ver lá fora! Os rios jamais sentem tédio. Seja um rio caudaloso, seja um riacho. Mas o mar não sai do lugar, lembrando um leão numa jaula. Todavia, o mar é um deus. Deus ou rei. E essas majestades, em geral, não saem de seus tronos. Embora o mar inveje os rios, lembremos que todos os rios correm para ele, como se fossem receber uma benção e purificar-se com o sal de que o mar é pródigo.


Curioso, os rios tornam-se por um tempo salgados, mas quando saem do mar, suas águas voltam a ser doces. E os rios fazem outra coisa que sua majestade salgada não faz. Os rios não só correm, como viram cachoeiras. Que lindo!


Afinal, rei é rei. E agora que dizer dos lagos? Como são humildes!... Também não saem do lugar, e nem têm ondas. Mas como são tranquilos! Vai ver que o mar também deve ter inveja deles. Pois fazem uma coisa que sua majestade marítima não faz. Eles refletem um luar em suas águas com nitidez de um espelho. Eles são os espelhos da Natureza. Disso o mar tem inveja. Como é poético trazer a lua para as suas águas. O mar, mesmo tranqüilo, jamais refletirá a lua, como um espelho.


Mas a vida é assim, cada um com suas invejazinhas. Todos, porém, são semelhantes numa coisa: todos precisam da água da chuva, seja mar, seja rio, seja riacho, seja lago, seja cachoeira. E o mar, às vezes, procura imitar o lago. Quer ver um exemplo?: O mar de Genezaré, cuja areia foi pisada por Jesus e onde ele pescou seus primeiros apóstolos. O Mar Morto é outro, que mais parece um grande lago e em cujas águas não há nenhuma espécie de vida, de tanto sal que possui, e onde este cronista achou de se banhar, um dia, numa viagem a Israel.


E a terra? Sim, e a terra? Sem ela, que seria do mar, do rio, do lago? A terra, na sua humildade, sustenta a todos. Mas vamos encerrar a crônica, que já começa a chover. Mais chuva, mais água no mar, nos rios, nos riachos, nos lagos. A vida é isto, leitor. Todos nós vivemos em total interdependência.

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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