A vida é assim

Pois é, a vida é assim, uma dança de contrastes, que fazer? Hoje é o sorriso que alegra, amanhã é o choro que entristece. Hoje é a dor que martiriza, amanhã é a convalescência que alivia.

Afinal, vivemos entre a esperança e a saudade, os dois pólos de nossa existência.

E a festa que a gente esperou tanto?! Quantas noites e dias aguardando a sua chegada!... E antes que ela chegasse, já estava em nossa imaginação, que sonhar não faz mal. E a sabedoria popular dizendo que o melhor da festa é esperar? Será? Não sei. Só sei que a festa chegou. Quanta alegria! Adoráveis reencontros, muita luz, muitos sorrisos, muitos abraços, as mesas cheinhas de bebidas e comidas. A esperança ficou do lado de fora. Agora era o presente se tornando realidade. Afinal, chegara o que mais esperávamos: a festa. A tristeza fora embora, pois não havia lugar para ela. Alegria, alegria, era tudo o que a gente queria. E o ditado popular perdera o sentido. O melhor da festa é a festa mesmo. Ora, ora, leitor, puro engano. Não demorou muito e veio o cansaço. Veio o sono. Veio o desejo de ir para casa. A festa já estava se findando. Ah, aquele bocejo! E chegou-nos aos ouvidos aquele dramático e filosófico poema de Drummond, intitulado "E agora José?"...


Sim, a festa já está se acabando. Pouco mais, a tristeza tomará lugar naquele espaço tão festivo. As mesas estão cheias de garrafas e pratos vazios. Uns morrendo de sono. O sono natural, trazido pelo cansaço e o sono provocado pelas bebidas e comidas... O melhor da festa agora é ir para casa. Daqui a pouco as luzes se apagarão e cairá sobre aquele espaço uma grande escuridão. Escuridão e solidão. Tudo, de uma hora para outra, se tornou vazio.



Mas, pensando bem, é melhor assim. Já pensou se a vida fosse somente festa? Na festa, não há condição para uma reflexão sobre a própria vida. Na festa, o que mais se procura é esquecer a vida com seus preocupantes problemas. Na festa estamos anestesiados pelo prazer provisório. Na festa a gente esquece aquela cruel interrogação: o que somos, para onde vamos, depois que deixarmos este mundo?


Pois é, leitor, a vida é assim: uma dança de contrastes. Alegria e tristeza, sorriso e choro, esperança e saudade. A esperança trazendo sorrisos e a saudade trazendo choro.


Acontece que a saudade está sempre conosco, falando sobre a festa. A festa deixou de ser uma esperança. E haja fotografias documentando tudo que passou.


Mas a beleza da vida está nesta dança dos contrastes. O próprio mar, todos os dias, nos dá lição de que tudo muda, tudo nasce e tudo renasce. É só olhar para as ondas, que morrem no sorriso das espumas e voltam para formar novas ondas...


Novo ano, novas esperanças, novas alegrias, novas tristezas, novos problemas, novas festas, que é necessário, vez por outra, enganar a própria vida. Mas a vida bem que pode ser simbolizada naquela esfinge que se postava no deserto dizendo para os viajantes: "decifra-me ou serás devorado"...

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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