O Som do Silêncio

texto: Germano Romero
Ó doce solidão, amiga da lembrança, como estás uma delícia ao som deste silêncio. Mais ainda, quando fazes do afeto teu parceiro. A que ora desfruto, num momento de agosto, muito longe do desgosto, sente ir o doce inverno, aos acenos de um setembro que já vem por acolá.

Mas de volta ao aconchego, deixo vir a solidão. Há quem possa sentir só com o afago deste vento, e a luz que traz a vida de um céu que há lá fora? Há quem possa não ter fé, quando sabe que a Terra gira sem que se a perceba?

E as lembranças que não houve? Solte e veja como é bom. Voe ideias pra bem longe, ou a séculos de um mundo que um dia você viu... Uma ladeira de pedra ao sol, bouganvilles que lhe riam, em um muro sem lamento. Ah quem sabe quantas vidas vêm e passam na memória, e nos falam do eterno, e de tudo que renasce.

Há quem possa ser só, ao saber que se quiser faz de conta que não é? Ao saber que tem a lua, as estrelas e o mar? E a música de um piano à surdina duma sonata, como espelho de si próprio que revela o lado bom.

E a ladeira, onde vi?... Chega agora à lembrança, sem dizer onde eu estava, mas trazendo a tal manhã, salpicada de alegria, e das cores do azul. Era céu naquelas flores, era dia à luz do sol, mas o cheiro de alfazema não negava que de outra era a vida que me vinha.

Será que isso é poesia? Então, só já não estou. Pois a forma da sonata tanto fez que me contou que jamais estará só, quem puder ouvi-la assim. E os olhos maviosos que nos filtram tanta cor?

Como pode estar só quem o mundo sabe olhar? Quem nas árvores vê a alma do planeta a suplicar que não pensem em coisa alguma mais divina que esta Terra.

Não pode estar só quem o mar sabe espiar. Esse sim, um grande amigo, em verdade um deus de água, que nos deu a vida há anos, e há anos ainda dá. É o mar com quem contamos, quando a mente quer trair os anseios do amor.

O amor sem egoísmo, que se dá sem se cobrar, que se quer na vida a dois, e se sabe que pra sempre terá ele que durar.

Como pode estar só quem possui o que amar? E é possível nesta vida não se ter a quem amar?...

Mas o dia virou tarde, cá estou a escutar. Ora, e tempo se escuta? Sim, na hora de uma noite que talvez lhe deixe só. No silêncio do escuro em que ouve as badaladas, dum relógio lá de dentro, que não para de tocar.

Mesmo assim hás de pensar, na manhã que um novo dia faz da noite seu passado. Do passado em que terás outro amigo da saudade.

A ladeira vou descendo e pensando o que virá, lá na curva desta tarde que setembro me trará. Ah lembrei do por do sol, que mais tarde eu verei. Como todos da memória de quem nunca fica só.

Mesmo assim, ó solidão, sendo amada ou odiada, acredite se quiser, que aqui terás guarida, nesta tarde ou nesta noite, de uma vida que se vai, sem cessar, tal é a lei.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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Um comentário:

  1. Lu Mineira29/8/11 23:58

    Ótimo texto, CR. Queria eu estar sozinha nessa praia, com os meus fantasmas e os meus mantras.

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