A Verdadeira Pátria não tem Fronteiras

por Germano Romero *

Em tempos de homenagens à Independência do Brasil, que neste sábado está completando 186 anos de idade, pensemos melhor sobre o assunto. Antes disso, porém, livremo-nos daqueles conceitos pré-adquiridos, tão forçosamente impostos, como são os lugares onde nascemos. Afinal, segundo prognósticos existencialistas menos profundos, ninguém escolhe o lugar onde nasce... Ou seja, não há culpa nem dolo em haver-se brasileiro, muçulmano, norte-americano, africano, assim como ninguém tem culpa de ter nascido negro, amarelo, branco, com qualquer cara. Culpa só existe quando a cara vira uma "cara de pau"...

Essa "onda patriótica" como está batizado o recente recrudescimento do orgulho de ser brasileiro, anualmente alentado pelo governo federal na "Semana da Pátria", é verdadeiramente muito boba. Salvos os eflúvios indiscutivelmente benéficos do progressista Governo Lula. Mas, custa nada lembrar que o passado da humanidade é recheado de conseqüências nada humanas, frutos de nacionalismos exacerbados. O mundo jamais esquecerá o que aconteceu, lá atrás, com o anti-semitismo, e o que ainda ocorre com a aguerrida patriotice estadunidense.

Os filósofos benfeitores da humanidade, notadamente os universalistas, foram contundentes em suas pregações anti-patrióticas. Sócrates repelia com veemência o título de "cidadão ateniense", corrigindo publicamente: "sou cidadão do mundo".

Marx, no Manifesto Comunista, deixa registrada sua posição em prol do sentimento universalista de sua teoria social, no anseio de que um trabalhador africano fosse tão igualmente tratado quanto um operário finlandês. Einstein detestava o nacionalismo, principalmente o militarismo, que, para ele afigurava-se imoral e ridículo. E como ele tinha razão!... Que anomalia as nações serem obrigadas a construir e manter instituições militares onerosas, com batalhões de ociosos que vivem às custas das idéias de guerra.

É uma grande distorção do bem comum fatiar o planeta em pátrias muradas por pífia soberania, limitando o usufruto da "pátria maior", que é a Natureza dadivosa desse planeta tão abençoado. E dessa divisão, advir um orgulho pueril, efêmero, sem nenhum mérito próprio, a não ser o de ter sido parido nesse ou naquele lugar.

Não consigo alimentar qualquer sentimento patriótico, mesmo sem negar que por ele somos contaminados desde que nascemos. Quem não sentiu o coração arrepiar-se quando nos ouvidos soou o hino nacional das medalhas olímpicas? Tudo bem, é natural. Desde que esse patriotismo esteja unicamente a serviço das boas virtudes, sem esquecer que a terra é bem maior, e, debaixo dela, a pátria é uma só. Lá a paz é obrigatória, e cabe em apenas sete palmos...

* O autor é arquiteto, músico, articulista de jornal, amante de viagens e da natureza, e, além de tudo isto, filho deste "blogueiro coruja".
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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