Tropeço na Caminhada (V)

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Tropeço na Caminhada (IV)

Nada Acontece por Acaso

Será que tudo que acontece é necessário? Antes que você responda, vai aqui a minha resposta: acho que sim. Nada ocorre sem uma causa. É através do sofrimento, da dor, que o homem vai aprendendo, vai crescendo, vai se fortificando. O grande filósofo e pensador espiritualista Pietro Ubaldi escreveu que a dor surge para destruir a dor. Logo, a dor é necessária. E sendo necessária é bem-vinda.

Difícil esse discurso, não é? Poucos o compreendem. Se não fosse a dor, que seria da nossa saúde? É através dela que procuramos restabelecer a saúde. A dor é aquele sinal vermelho, avisando-nos de um perigo. Daí ser ingênuo, muito ingênuo aquele que procura esconder a dor através de analgésicos.

A Garota Doente (1882)
Michael Ancher

Imagine você se o painel de seu carro não o informasse de uma falha, de uma irregularidade, a exemplo de uma diminuição de óleo. Aquela luzinha que se acende no painel é necessária, graças a ela você pode tomar uma providência. Pois assim é a dor. Sua função é de advertência, de aviso. E quem avisa - diz o ditado - amigo é.

Com essas considerações, chego à conclusão que aquele acidente ocorrido comigo não foi em vão. Talvez uma benção. Deus escreve certo por linhas tortas? Eu acho que a caligrafia divina não tem nada de torta. Torta é a nossa visão.

Vejamos o aspecto positivo do acidente. Graças a ele, vi-me forçado a fazer um check-up, coisa que jamais faria espontaneamente. Mas com a queda, e conseqüentemente, com a minha internação num hospital, fui forçado a uma revisão geral do organismo. Na condição humilhante de paciente, não adiantaria o meu protesto. Nem sequer o médico me perguntou se eu queria fazer exames.

Todo paciente é um submisso, um pobre diabo sem vontade. E quando cai numa UTI aí sim. Nem visita recebe mais. Fica ali rodeado de fios e aparelhos. E o pior é que quando seu cérebro pára, assim mesmo ele continua mecanicamente vivo, o que não deixa de ser uma vantagem para o hospital. O paciente é um hóspede de um hotel que se chama hospital. Aliás, a palavra hospital etimologicamente vem de hospedaria ou hospedagem. Assim como um hotel não gosta quando um hóspede sai, o mesmo acontece com um hospital.

Mas esse gosto eu não vou dar ao dono do hotel. Ao que tudo indica, daqui a algumas horas, eu estarei fora deste hospital, ou melhor, desta hospedaria. E me vem agora um forte sentimento de autocomiseração. Tive pena de mim deitado no asfalto, enquanto o mar, perto, se desmanchava em espumas e os bem-te-vis cantavam soltos na praia. Tanta beleza na manhã e eu estirado no asfalto duro. Como a vida nos impõe certas situações! Mas, afinal, eu não fui avisado? Fui, sim, e agora estou pagando pela desobediência. Não adianta reclamar. Reclamação não resolve. O que resolve é a reflexão seguida da ação. Valeu o que aconteceu. Sejamos menos surdos e menos cegos.

O sofrimento tem uma grande vantagem. Ele nos força a refletir sobre a vida, coisa que não fazemos quando estamos nos divertindo. No prazer, sobretudo o físico, a gente não pára para pensar. A gente conversa, a gente bebe, a gente canta, a gente dança, a gente solta gargalhadas, e nada de uma reflexão. Esta surge com a dor. A dor que chega para acabar com a dor, segundo Pietro Ubaldi.

(Continua)

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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