Tropeço na Caminhada (IV)

Continuação de Tropeço na Caminhada (I)

A Primeira Queda a Gente Nunca Esquece!

O especialista acaba de informar que eu tenho bico de papagaio. Um bico pequeno. Dir-se-ia de periquito. E – cá pra nós – acho tudo isso muito ridículo. É quase certo que a causa da queda tenha relação com a cervical. Daí essa dificuldade na circulação. Mas o resto está tudo muito bem. E viva o esqueleto do cronista, que caiu mas não se quebrou.

A enfermeira diz que talvez eu tenha alta no fim da tarde. Os exames foram ótimos. Agora estou me lembrando da minha primeira queda na vida. Foi quando eu tinha 5 anos, lá na Escola Modelo, que funcionava onde é hoje o Tribunal de Justiça. Lembro-me do meu uniforme – camisa branca e calça curta grená. Como todo menino, eu adorava correr, subir escadas, ganhar espaços. E foi numa dessas corridas que tropecei e cai, no corredor da escola. Muita gente veio me acudir. Mas o que mais me surpreendeu e irritou foi a atitude da inspetora, se não me engano chamada dona Laura. Mal me levantei, ajudado por algumas pessoas, ela gritou:

- “Levanta para cair de novo.” - e soltou uma terrível gargalhada.

Foi talvez a primeira sensação de ódio que senti na vida. Ah, como desejei que dona Laura caísse, um dia... Espero que minha praga não tenha surtido efeito. Pobre dona Laura!

A segunda queda foi na calçadinha da avenida Cabo Branco. Ia eu caminhando quando tropecei devido a uma diferença de nível do mosaico. Foi um quedaço, cujas conseqüências foram deploráveis. Já a terceira foi mais recentemente, coisa de 3 a 4 anos, ainda aqui em Tambaú.

Numa bela manhã de domingo, caminhava eu muito eufórico, em traje esportivo, com uma bolsa na mão, quando parou um carro bem perto de mim. E dentro dele um jovem que estava na traseira do veículo me pediu as horas. Aproximei-me do carro, quando, de súbito, o rapaz, de peixeira em punho, dizia que ia me matar. Sem dúvida era um assalto. Como agir? Vestido de atleta e com boa disposição física, disparei numa corrida que faria inveja a Felipe Massa. Como corri! Nada menos de duzentos metros. E, no final, a queda, a desastrada queda. Levantei-me com a camisa banhada de sangue. Todo o impacto foi na boca. Assim mesmo fui andando para casa, morto de vergonha. Felizmente, ninguém percebeu. Horas depois, eis-me num Pronto de Socorro de Fraturas.

Era a terceira queda. A quarta, que espero seja a última, todos já sabem como se deu, que estão relatadas nas crônicas anteriores (Tropeço na Caminhada I, II e III). Mas a vida é isto: uma caminhada cheia de tropeços, de obstáculos. Caem as pessoas, caem os prédios, caem as monarquias, caem os regimes políticos, caem as bolsas de valores, caem as cachoeiras, caem os aviões, caem as frutas maduras.

E foi graças à queda de uma maçã que o físico Newton descobriu a lei da gravidade. A Bastilha - quem diria? - um dia terminou caindo. Ninguém está seguro nesta vida. Os animais, nesse ponto, ganham para os homens, graças aos quatro pés. Somos todos bípedes indefesos.

(Leia a continuação)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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Um comentário:

  1. Eneida Agra24/9/08 09:57

    Carlos, demos boas risadas com o "bico de periquito". Você é um gênio e esse seu blog uma delicia!

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