Tropeço na Caminhada (III)

Quem me trouxe para o Hospital?

Quando aquele homem me viu perdendo o equilíbrio e caindo no asfalto, não pensou duas vezes. Foi logo me acudindo. Eu estava como morto. Não me lembrava de nada. Ah, como eu gostaria de me ver assim! Que sádica autopiedade!... Por sorte, outro bom homem ia passando em seu automóvel, a quem o primeiro chamou pedindo ajuda. Fui carregado por eles até o carro. Colocaram-me dentro do veículo. Sem dúvida, disseram: “é melhor deixá-lo num hospital. De lá a gente telefona para os seus familiares”.

Curioso! Eu me lembro vagamente que dera o número do telefone de meu apartamento aos dois samaritanos. Eis outro milagre. Sim, o que esses senhores fizeram foi o mesmo que o “


O Bom Samaritano,
François-Léon Sicard
Jardin des Tuileries
Paris

bom samaritano” fez a um homem ferido na estrada de Jericó, segundo a parábola do Evangelho.

Aqueles homens, sem me conhecerem, interromperam a sua caminhada, e trataram de me acudir, colocando-me num carro. Um belo ato de amor para com o próximo. E mais: depois que me deixaram no hospital e informaram a ocorrência aos meus familiares, ainda procuraram, horas depois, e também no dia seguinte, saber como eu ia. Usaram da mesma compaixão do samaritano. Portanto, a lição da parábola não é impossível de ser seguida.

Ao que tudo indica, eu estava apenas desacordado. E aqui para nós: foi um sono gostosíssimo. Se morrer for assim... Sem dúvida, meu espírito assistia a tudo em silêncio. O resto eu já contei. Vi-me deitado num leito de hospital, sem sentir grandes dores. Parecia que me haviam anestesiado. Ferido na testa, com um forte hematoma junto do olho esquerdo, e aquela paz dentro de mim. Decididamente, médicos de outra esfera estavam ali me assistindo. A voz interior que previra o acidente estava agora ao meu lado, sem fazer nenhuma censura, nenhuma reprimenda, e disposta a novos avisos, a novas advertências. A vida é mesmo uma grande escola. Estejamos mais atentos às suas lições. Lembram-se daquela fórmula do Mestre? “Orai e vigiai para não entrardes em tentações”.

Mas ao que fui informado, os exames não deram nada. Eu não sei se os médicos gostaram disso. Que seriam dos hospitais se os pacientes não esquentassem seus leitos? Iriam à falência. Um homem com a idade que tenho (tenho mais de cinqüenta, leitor curioso) e não ter nada no cérebro, no sangue, no coração, é o que se pode chamar de um milagre de vida. E devo isso a quê? A uma vida sem excessos. Basta repetir que essa ligeira estada no hospital foi a primeira. E tudo em decorrência de um tombo, de uma queda, de um tropeço.

Mas o exame que eu desejo fazer agora é o exame de consciência. Esse não precisa de aparelhos eletrônicos. Não precisa de profissionais sem calor humano. Esse é o que a gente deveria estar sempre fazendo. Afinal, por que caí? Foi boa ou má a queda? O fato é para lamentações ou reflexões? Devemos estar mais atentos às nossas intuições? O acidente poderia ter sido pior? Se eu caísse numa avenida de muito movimento de automóveis? É preciso, vez por outra, formular perguntas à vida.

(Leia a continuação)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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3 comentários:

  1. Jurandir Xavier16/9/08 08:25

    É, mestre Carlos, exame de consciência não precisa mesmo de aparelhos, não é? Ótima crônica. O blogue também.

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  2. Jurandir Xavier16/9/08 08:27

    É, mestre Carlos, exame de consciência não precisa mesmo de aparelhos, não é? Ótima crônica. O blogue também.

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  3. Ah! Hoje consegui abrir a janelinha para o comentário...
    Estou acompanhando sua narrativa e estava sem enviar meu agradecimento pela visita.
    Espero que esteja melhor e se cuide!
    PS: Os peixinhos adoram carinho... risos
    Abraços,
    Helô

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