Tropeço na Caminhada (II)

Continuação de Tropeço na Caminhada (I)

Quarto de Hospital

Quando despertei da síncope me vi cara a cara com uma enfermeira procurando uma veia no meu braço para receber o soro. Aí me deu um desejo enorme de sorrir. Achei-me ridículo com aquela camisa e calção esportivos, deitado num leito de hospital. A vida, às vezes, se torna cômica. Sentia uma forte dor de cabeça. E me veio logo esta indagação: como estaria o meu rosto?

Ah, um espelho!... Não custou muito e ei-lo nas minhas mãos. Vi que o tombo no asfalto foi para matar. Um enorme hematoma junto do olho esquerdo dava a medida do acidente. Coisa para lutador de boxe.

Cadê aquela voz interior que me advertiu da ocorrência? Por que a desobediência? Orgulho, teimosia, falta de fé? Como somos surdos às nossas intuições! Mas de quem foi a culpa do acidente? Da vida? Não. A culpa foi minha. Sou o responsável por tudo que me acontece. Daí a necessidade de um permanente estado de oração e vigilância, como ensina o Evangelho.

A voz interior cumpriu com a sua missão. Diante da minha desobediência, veio o respeito ao meu livre-arbítrio. O homem é livre para semear e obrigado a colher. Está aí um princípio de justiça admirável.

Manhã de sol muito bonita e eu num quarto de hospital, vestido de atleta, com um hematoma no rosto e alguns ferimentos! E olha que, com todos esses anos de vida, aquela era a primeira vez que eu me internava num hospital. Só mesmo um acidente, porque de doença eu ainda sou virgem.

Mas por que as tonturas? Por que o acidente? A gente deve estar sempre interrogando os fatos. Como estava sendo a minha alimentação? E o meu peso? A balança todos os dias me dizia que eu estava ficando gordo. A balança só não. Alguns amigos, durante o cooper, aludiram à minha obesidade.

“Cronista, você está ficando gordo!”; “Olhe... a barriguinha está crescendo.” - era só o que ouvia. E eu terminei por me aborrecer com essas intromissões, esquecido de que os outros são o nosso melhor espelho. Fiz uma reflexão e cheguei à conclusão de que eu estava abusando da alimentação. Logo eu, um macrobiótico...

Não fazia uma hora de internato hospitalar, e eu já doido para me levantar, sair dali, ir para a casa. Saudade do meu jardim. Saudade do meu computador. Saudade da vida lá fora.

Hoje ninguém fica mais doente em casa. A medicina tradicional, manipuladora de mil instrumentos eletrônicos acabou com o internamento domiciliar. Até para morrer, inventaram os tais velórios fora de casa. Dão mais dinheiro. E cadê aquele médico da família? Um personagem em extinção, se já não se extinguiu. Hoje é tudo muito impessoal.

Fui informado que o neurologista iria me examinar. Mas o que mais me comoveu foi a visão dos queridos familiares. Quanta ternura nos seus olhares! Quanta preocupação! E logo me disseram que eu teria que me submeter a uma série de exames. Haja paciência! Não é sem razão que somos chamados “pacientes”.

(Leia a continuação)

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), cronista paraibano.
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