O Sabor da Vida

Graças à pousada uterina, durante nove meses pegamos carona na alimentação materna, sugando-lhe as energias, sem pagar nada. Depois somos forçados a deixar a silenciosa e aconchegante estalagem e lançados fora, com muita fome. Aí a gente chora. Chora com aquele ar entrando pelos nossos delicados pulmões. É como se a vida nos dissesse: acabou-se o que era doce.

Viver é comer, é alimentar-se... Aí vem a pergunta: como é que você está digerindo a vida? Com o apetite do entusiasmo?... Ou com inapetência?

É preciso que saibamos comer bem a vida, saboreando-a. Infelizmente há aqueles que não sabem degustar a vida. Que não mastigam a vida. Engolem-na. Os homens apressados são assim: não sabem usufruir o alimento vital. Daí as patologias, a depressão, o mau-humor, a raiva, a impaciência, a depressão.

A vida é alimentação. Não nos nutrimos apenas de oxigênio, nem de pão, nem de carne, nem de feijão, mas também de pensamentos, de vibrações, de sentimentos, de emoções, de palavras. Esses alimentos são sutis e invisíveis, e o seu valor passa despercebido para muitos.

Quando você conversa com uma pessoa, você está se alimentando de seus pensamentos, que tanto podem ser saborosos, sadios, como venenosos. Muito cuidado!!!

E que dizer dos enjôos da vida? Há tanta gente por aí enjoada da existência, que dá dó. São os pessimistas, os desanimados, os tristes, os maledicentes, os saturados, que não encontram mais motivação nem interesse em nada. Mas o pior são aqueles que vomitam a vida, cometendo suicídio.

Nada de fastio diante da vida. Nada de enjôo, nada de azia, nada de jejum, nada de gula... Saiba saboreá-la, alimentando-se de boas idéias, de bons sentimentos. Senão vêm a indigestão, a dor, as disfunções, as cólicas das angústias. Tempere a existência com o tempero do amor, sem extremismos. A vida bem saboreada é outra coisa.

Ilustrações: Paul Cezanne
(1) Still Life With a Basket (1890-95)
(2) Still Life with Basket of Apples (1890-94)

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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