Troca de Palavras


Frederick V - King of Bohemia
Gerard van Honthorst (1634)
Algumas expressões, quando pronunciadas, podem soar com certa aspereza e, por isto, precisam ser substituídas por outras, que assumam um ar mais agradável. Isto é o que se chama eufemismo.

Hoje, numerosas são as palavras que se tornaram mais amenas, que já não ferem os nossos ouvidos. Tudo, afinal, é a maneira de dizer e de escrever.

Narra-se que, certa vez, um poderoso monarca sonhou que lhe caiam todos os dentes. Desapontado com o sonho, o monarca tratou imediatamente de consultar os seus adivinhos. O primeiro foi logo dizendo:

Este sonho significa que vão morrer todos os seus parentes.

O rei ficou zangado e mandou logo prender o adivinho, que foi, imediatamente, substituído por outro. Este, muito sagaz, sorriu e disse:

Que beleza, que ventura, meu bom monarca! O sonho significa que Sua Alteza vai sobreviver a todos os parentes e herdar uma grande fortuna.

O rei ficou contente e gratificou, regiamente, o segundo adivinho.

Ora, a versão dada pelos adivinhos foi a mesma, o que mudou foi somente a maneira de dizer.

Muitas palavras, de um tempo para cá, mudaram, enquanto outras continuam com a velha vestimenta, a exemplo de “Morte”. Ainda não se encontrou uma substituta para ela. Os espíritas costumam chamar a Morte de Desencarnação. Eu prefiro usar a palavra Desenlace. É mais suave. Que acha o leitor?

Há quem diga: “Fulano partiu ou viajou”. A verdade, porém, é que a maioria ainda continua dizendo Morte. E o morto de “finado”, que horror!

Situação diversa ocorreu com as palavras “pobreza” e “pobre”, que foram substituídas por “carência” e “carente”. Vejamos outras: “idoso" substituiu a dureza da palavra "velho"; "deficiente visual" fica bem melhor do que "cego". Quem hoje se atreveria a referir-se a um doente como leproso? Ninguém. A palavra foi substituída por “Mal de Hansen”. Ficou melhor.

Pena que ainda não tenham encontrado substitutas para as palavras "sogra" e "madrasta", que soam muito mal. Mesmo que se diga "minha querida sogra" ou "minha querida madrasta", o adjetivo não consegue amenizar a aspereza que vem costumeiramente associada ao substantivo.

E eis que me chega agora a palavra: "aposentado". Haverá vocábulo mais horroroso e ridículo do que esse? O seu substituto, “inativo”, é ainda pior. Parece coisa que não presta mais, que deixou de funcionar. E viva o eufemismo!

Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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Um comentário:

  1. Anonymous13/5/08 19:35

    Caro blogueiro,
    Realmente existem muitas palavras que, quando expressas de alguma forma, apresentam uma carga fortemente negativa. O melhor é não fazer comentários maldosos, ainda que sejam utilizadas palavras "amenas", para não magoar as pessoas.
    Adorei os seus textos...
    Um abraço.

    Alice Vergueiro
    São Paulo

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