Solidão Quase Sempre

On the Threshold of Eternity
Vincent Van Gogh (1890)
Por incrível que pareça devemos bendizer a solidão. A solidão também é necessária. É por meio dela que o homem conversa consigo mesmo, que se encontra com a sua consciência, que se auto-analisa, que se ilumina.

Há muita gente com medo de defrontar-se consigo mesma, o que não deixa de ser lamentável. A consciência é um espelho que se revela no silêncio da solidão. É recomendável, vez por outra, olhar para ele. Ou será que andamos com medo de nossa própria imagem?

Aliás, temos três espelhos na vida: o espelho material, que tanto pode ter uma superfície polida como a de um lago; o espelho que está na visão dos outros - aquele que enxerga os nossos defeitos; e o espelho mental, isto é, a nossa consciência.

Podemos fugir do primeiro, mas dos outros não. Quanto mais tentarmos fugir do espelho interior, mais ele se fará presente. O espelho que está nos olhos dos outros também deve ser levado em consideração. Muitas vezes trazemos uma imagem falsa de nós mesmos. Uma imagem que se choca com a que os outros fazem a nosso respeito.

Não menosprezemos a imagem que os outros têm de nós. Talvez seja a mais certa, a mais real. Daí a importância da crítica. Da crítica e da autocrítica, desde que sejam sinceras.

O espelho de que jamais nos livraremos é o da consciência, que nos segue com uma fidelidade de sombra, tanto nesta como em outra vida. Não adianta afogar-se na bebida, na droga, nos divertimentos, até mesmo no trabalho excessivo. Esse espelho estará sempre nos surpreendendo, nos observando, refletindo a nossa verdadeira imagem.

Ao invés de fugir, nós devemos é mirá-lo, enfrentá-lo freqüentemente. O homem dos nossos dias anda fugindo muito de si mesmo. Uma fuga inútil. É o mesmo que fugir de sua própria sombra.

O grande pensador Ortega Y Gasset já dizia que "os animais irracionais não sabem olhar para dentro de si". Vivem com os olhos para as exterioridades. Não se concentram, não meditam, não se miram no espelho interior. Mas não se miram porque não o possuem. Só o homem pensa, embora haja muitos homens que mais se afinam com os animais irracionais...

Portanto, seja bem vinda e bendita a solidão. Só ela nos interioriza, nos ilumina. Tem muita razão o velho Picasso: "não se pode fazer nada sem a solidão".
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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