Saudade Antecipada

Vai chegar um dia em que ele será destruído. Mas enquanto isso não ocorre, deleitemo-nos com esse oásis que a Natureza nos deu: um quintal à antiga, com galinhas e galo, papagaio, mangueiras e coqueiros, pombos e passarinhos, canteiros e horta. E que dizer do seu silêncio ecológico? E que dizer dessa paz, longe das máquinas, longe dos televisores e dos telefones?

O homem, que foi á lua, que inventou tanta tecnologia, jamais fará este pau-brasil, cujas folhas o vento agita neste momento. Jamais fará este bem-te-vi que canta. Jamais construirá essas enormes mangueiras, castanholas e coqueiros e muito menos os seus frutos.

Fico olhando o meu oásis com uma saudade antecipada. Sim, chegará o dia em que ele será soterrado, afundado, destruído. Em seu lugar será erguido uma enorme construção com centenas de apartamentos, verdadeiras gaiolas humanas, lá no alto, longe da terra.

Todo habitante de apartamento é um prisioneiro. Acabou-se o tempo em que se dizia: “vou para minha casa”. A casa está se acabando, está se tornando uma intrusa. E, como toda prisão, os apartamentos são protegidos pela segurança. Ninguém entra nele sem o consentimento do vigilante, que olha para você meio desconfiado, pedindo identificação e imediatamente tentando se comunicar com a pessoa procurada pelo intruso.

Casa com quintal virou coisa fora de moda. Casa com cachorro, com a placa “cuidado com o cão”, está se acabando. Os apartamentos é que estão na moda. Tão na moda como a calça jeans, como os telefones celulares...

Voltando aos poucos quintais que ainda restam, como estão eles cercados de imensos edifícios! Cercados ou imprensados? Sim, está havendo um verdadeiro cerco em torno desses oásis. Um cerco asfixiante. A cidade precisa crescer. Os construtores precisam ganhar dinheiro.

A população está crescendo. Portanto, destruamos essas mangueiras, esses coqueiros, esse enorme e ornamental pau-brasil. Isso não se usa mais. Essa é a ordem do dia.

Ao invés de galos saudando as madrugadas, abramos os televisores com as últimas noticias sobre a corrupção nacional. Galo cantando é hoje uma obsolescência. Assim se diz, assim se comenta.

E para onde irão os passarinhos? Bem-te-vis e pardais? Não sei, leitor, não sei. Só sei que sinto, neste momento, uma saudade antecipada.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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