Peregrinos do Tempo

Paisagem com Rio
Savrasov

Não. Não me falem de passado. O passado passou. Que ele fique guardado e poucas vezes visitado. E que essa visita não demore. Colhamos suas lembranças como as flores de um jardim, mas voltemos depressa para a casa do presente. E esqueçamos seus espinhos. O bom mesmo é o presente, é este momento que estamos vivendo.

Qual a atitude a tomar diante do passado? De compreensão, de compaixão, procurando aproveitar a lição que eles nos ministrou. Mantê-lo como referência.

Mas, ao que informam os filósofos, não há passado, nem presente, nem futuro. O tempo é uno. A mente humana é que estabelece limites a ele. O tempo é como as águas desse rio que vão correndo a caminho do mar. Sejamos peregrinos do tempo, andarilhos da eternidade. Jamais construamos sólidos edifícios em seu terreno, mas tendas descartáveis, de fácil desmontagem, que a vida tem pressa...

Acontece que o homem adora dividir as coisas, fracionar a realidade. Se você quiser, agora mesmo, pode reviver o que passou. E hoje está mais do que provado que nosso passado não começa do útero. Ele se estende ao longo dos séculos e milênios. Daí a moderna terapia das vidas passadas. Está aí o psicoterapeuta norte-americano Brian Weiss levando as pessoas a empreenderem uma emocionante viagem de volta, e curando-as de muitos traumas, de muitas enfermidades, e ao mesmo tempo conscientizando-as de que somos o que fomos. Eis a necessidade do discernimento, da boa escolha, da constante vigilância.O passado ensina, mostra os nossos erros, as conseqüências de nossas fraquezas, os nossos abusos, os nossos desacertos. O passado tem um extraordinário valor didático. E nos estimula também.

O importante, porém, é o “aqui e o agora”. Viver a todo momento com saudades do passado é parar no tempo. É ficar à margem. É se deixar morrer, apodrecer, enferrujar. Sigamos a correnteza desse rio, que é a vida. Não queiramos que suas águas se transformem em gelo.

Tenho muita pana de quem se apega ao passado como ostra ao casco do navio. Esse postura envelhece. Envelhece e envilece. E se quisermos retroceder no tempo, que seja para simples aferição, para simples tomada de consciência. Um grande empresário disse que não deseja ser maduro e sim verde. Por que ele usou tal metáfora? É porque o maduro termina apodrecendo, enquanto no estado verde o homem é toda esperança, é toda curiosidade, é todo sonho. Horrível quem diz: “fulano é um homem realizado.” Mais horrível é ouvir alguém dizer: “o que é que eu quero mais da vida?” Quem pensa assim já não está mais maduro. Está apodrecido.

Morreu aquele que diz: ”no meu tempo não era assim”, e pensado assim esquece que o tempo é este que está passando. Ninguém pode parar as águas de um rio, nem dizer para elas: “voltem ás suas nascentes”. Seria muita ingenuidade. Ingenuidade ou estupidez? Ambas as coisas.

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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