O Bom Assaltante

O assaltante, mal se levantou da cama, foi logo perguntando á mulher: "Cadê os jornais?”

Depois de passar uma vista rápida no matutino, disse, cheio de razão: "Esses caras não sabem trabalhar, não." - Referia-se a um assalto frustrado.

A mulher, para agradá-lo, afirmou: "Ninguém é como você. Até hoje a policia não conseguiu pegá-lo.".

O assaltante sorriu e disse: "Mulher, lembre-se que tenho doutorado em assaltos..."

Ambos sorriram. A mulher admirava o marido, um homem corajoso, trabalhador e crente em Deus.

Pouco depois, o assaltante, já preparado para sair, consultando o relógio falou: "Vamos ao café, minha filha, que não tenho tempo a perder. Sou um homem de negócio e não brinco em serviço."

Durante a refeição da manhã, ela indagou: "Meu bem, será que teremos bons assaltos hoje? Estou precisando de grana."

E ele, curioso: "Afinal, em que ficou os dez mil reais que te dei ontem?"

"Botei tudo na poupança e ainda dei um dinheirinho pra igreja." - respondeu ela, sorrindo.

O assaltante sentiu-se envaidecido. Então, lembrou-se do filho: "Cadê João? Está dormindo?"

“Não." - disse a mulher - "Ele já foi para o colégio. Gostaria tanto que fosse médico...”

O assaltante, pilheriando: ”Por que não seguir a carreira do pai?”

“Não! Eu quero uma carreira mais segura para o nosso filho. – E concluiu ela: "Ou médico ou advogado. Politico jamais."

Rindo, o assaltante foi se levantando e dizendo: ”A conversa tá boa, mas tenho de trabalhar.”

A mulher olhou-o com admiração. Por fim, abençoou: ”Vá com Deus!”

O assaltante gostou da companhia. E a verdade é que até hoje nada lhe aconteceu. Já assaltou vários bancos com sucesso. “Vá com Deus!” - a frase ficou soando nos seus ouvidos. Sim, ele era um assaltante, mas um bom assaltante. E lembrou-se do bom ladrão a quem Jesus disse: ”Hoje mesmo estarás no paraíso.”

Sabia que nada lhe aconteceria de mal. Confiava na sua habilidade e nas orações da mulher. Afinal, ele era um cristão, tanto é assim que contribuía com um bom dinheiro para as obras da igreja.

E eis que o filho, mal chegou em casa para almoçar, foi logo perguntando pelo pai, ao que respondeu a mãe: ”Seu pai foi trabalhar e talvez não venha almoçar.” O menino ficou em silêncio.

Nisso a mãe chega toda pronta, dizendo-lhe: ”Vou comprar umas jóias.” Mal pronuciou tais palavras e o telefone tocou. Meio angustiada, ela atendeu ao chamado. No outro lado do fio uma voz dizia que o marido foi morto em um assalto. Informando ao filho o que aconteceu, ela não suportou a emoção. Caiu fulminada por um infarto, enquanto o garoto saiu correndo como doido e gritando: ”Papai! papai! O que será de mim agora?”

Pouco mais a casa se encheu de gente. A policia veio depois e revistou tudo.

No outro dia, o jornal trazia a seguinte manchete: ”Bandido cai morto, depois de forte tiroteio com a polícia."

E, por incrível que pareça, o enterro do assaltante foi muito concorrido. Houve muitas orações em favor de sua alma.
O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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