Minha Grande Professora

A Jovem Mãe
Jean-Honoré Fragonard (1732-1806)

Sim, ela foi minha grande e dedicada professora. Professora de letras, sem doutorado, nem mestrado. Autodidata extraordinária, que me ensinou a gostar de livro, que me contava histórias maravilhosas, que me deixavam embevecido.

E como sabia interpretar os personagens da narrativa! Histórias de bichos e fadas, de rainhas, de gigantes. Muitas vezes, eu não agüentava de emoção e chorava. Chorava com pena de Branca de Neve, tão bonitinha e perseguida pela rainha má. Mas será que a rainha era má? Hoje eu diria que ela era involuida , mordida de inveja, sentimento negativo que está em quase todas pessoas...

Foi essa excelente autodidata que me despertou o gosto pela literatura. E ela dava o exemplo. Sempre a via com um livro na mão. E muitas vezes, lia-o em voz alta para mim.
Só não quis ler o romance “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, livro que na época provocou um escândalo. Muita gente tachou-o de pornográfico. E isto por que havia uma cena em que o menino se masturbava.

Minha professora... Já está na hora de revelar quem era ela. Não foi outra senão minha mãe, Dona Pia, na intimidade Piiinha. E como no dia 5 de maio é o seu aniversário, trouxe-a para este blog , que também se propõe a discorrer sobre a arte da literatura.

Pois bem, leitor, minha mãe vivia com um livro na mão. E quer saber de uma coisa? Ela escreveu uma porção de poemas num caderno. Como era uma excelente decifradora de palavras cruzadas e charadas, chegou a elaborar uma porção delas.

Saiu do mundo, contando mais de 100 anos. E deveu sua longevidade a três coisas: alimentação sóbria (ela adorava suco de cenoura), leitura constante e otimismo. Estava sempre com bom-humor.

Certa vez, leu para mim o romance de Camilo Castelo Branco “Amor de perdição”. Leitura que me levou ás lágrimas.

Minha mãe era assim. Uma autêntica intelectual. E quando moça tocou flauta, enquanto seu pai soprava o clarinete. Não é sem motivo que sou doido por música erudita.

Mas está na hora de pingar o ponto final, enquanto as lágrimas não me cheguem aos olhos. E aqui vai um apelo: Mães! Ensinem seus filhos a gostar de livros.
Patrono do Blog
Carlos Romero (1923-2019), escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras.
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3 comentários:

  1. Carlos C. de Melllo
    (Rio de Janeiro)

    “O essencial é invisível para os olhos”. Quem lembra dessa frase? Está no O "Pequeno Príncipe," livro que encantou algumas gerações do século passado, e que hoje é tido por muitos como cafonice e antigualha. Mas eu não receio ser tomado por antigo – na verdade sou-o – nem cafona – pois não ligo para preconceitos e estigmas de mentes tacanhas. Hoje os que se acham donos do mundo demonstram uma rejeição cada vez mais forte às coisas do espírito – das obras de arte aos textos sagrados. Já o grande poeta Jorge de Lima lamentava em suas Memórias “esse desprezo que votam certos graúdos e burros de hoje pelos poetas. Poetas vivendo em mundos de lua não servem pra capitalizações, negócios e sordícias, dirão que poetas são desprezíveis”.

    Verifique você mesmo: pegue o jornal de hoje e veja como o espaço “nobre” é dedicado preferencialmente aos fatos políticos e econômicos (geralmente roubalheiras e traições), aos esportes (sobretudo o lado negativo da violência) e às ocorrências policiais, cada vez mais tenebrosas. Há uma curiosidade mórbida no ar, alimentada sinistramente pela televisão. Sobra pouco espaço para quem anda em busca de algo que eleve o espírito, areje a mente e proporcione algum alento à difícil caminhada nesse deserto de homens e idéias em que vai se transformando o mundo, e com ele nosso país.

    Essas reflexões me ocorreram hoje com mais vigor, após a leitura do livro de crônicas "Lições de Viver", do escritor paraibano Carlos Romero. Faço desde já um desafio a qualquer futuro leitor desse livro: leia a primeira crônica e experimente parar. Aposto que não conseguirá. Porque o texto do Carlos é um delicioso biscoito fino, a gente experimenta e fica com aquele gosto de “quero mais”. São 60 crônicas, breves, leves como a brisa marinha que sopra sobre o Cabo Branco, residência privilegiada desse artista sensível, encantado com as coisas simples e maravilhosas que o Criador distribui em profusão pela terra.

    A bendita curiosidade de Carlos pelo sol, pela chuva, pelas borboletas e passarinhos é um colírio, que abre nossos olhos para tanta coisa maravilhosa, que preferimos não ver, que trocamos irresponsavelmente pelas cenas de violência, pelo corre-corre, pela pressa amalucada do mundo. Por isso, esse cantor do cotidiano lamenta “os sem curiosidade, que olham as belezas da vida com muita indiferença, que passam sem ver as flores de um jardim, o azul de um céu, o verde das ondas do mar, uma lua solta entre as nuvens”.

    Mas Carlos não se limita ao olhar emocionado e agradecido. Dessas coisas aparentemente sem importância, ele retira, com sua larga experiência, sua profunda cultura e sua inteligência privilegiada, lições de vida que encantam pelo bom senso e pela simplicidade. Quantos aproveitarão delas para sua vida? Quantos pararão para refletir sobre o que fazem e sobre o que deixam de fazer? Quantas vezes você, leitor, deixou de olhar para o mar azul à sua frente, porque estava de olhos fitos no relógio? Quantas vezes ficou surdo ao canto de um passarinho, por ter a audição bloqueada pelo celular? Quantas vezes trocou a conversa estéril na agitação do bar por uma lenta caminhada entre as árvores?

    Só lhes digo isso: leiam o livro. Deixem-se penetrar por esse canto suave, cheio de doçura e sabedoria. Talvez ainda haja tempo para uma correção de rumo, antes do enfarte ou da depressão. Talvez você possa inverter essa equação mortífera do ter sobre o ser, da posse de bens materiais dos quais muitas vezes sequer usufruímos por falta de tempo, pela fruição daqueles bens sem dono e sem preço, que estão à sua disposição de manhã à noite. Porque, como diz o filósofo Thich Nhat Hann, citado por Carlos na última crônica do livro, “está morto quem não se conscientiza do momento que está vivendo.” Está mais do que na hora de pensar nisso.

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  2. Breno Grisi (Rio)
    http://ecologiaemfoco.blogspot.com/

    Suas observações estão certíssimas, caro Carlos.Fiquei curioso em conhecer os escritos do conterrâneo Carlos Romero.Coincidentemente, sempre que consigo "platéia" (em minhas aulas de ecologia, políticas públicas ambientais e similares...), tento mostrar que as exigências das "necessidades" modernas do ser humano, sua cegueira para a essência desta nossa passagem terrena, são os causadores principais desse desencontro homem-Natureza.Ou seja, qualidade de vida não é exatamente isso que ora vivemos!

    Sábado, Maio 03, 2008

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  3. Mary Caldas disse...

    Somente o ser humano consegue usar livremente as palavras e criar o enredo da "peça teatral" a ser encenada no palco da vida. Não lí o livro do Carlos Romero,tão bem citado em seu texto. Precisamos criar o hábito de agradecer a Deus descobrindo na vida cotidiana coisas e fatos benéficos que nos possibilitem a construção de uma vida luminosa e feliz. Um grande abraço, Mary

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