Desabafo Lírico

Com a camisa, a bermuda e os sapatos tênis ensopados d’água. Foi assim que cheguei da caminhada de hoje, aqui na avenida Cabo Branco. A chuva achou de tomar o lugar do sol, que ficou dormindo sobre as nuvens. Afinal, como diz o poeta: "pernas p'ro ar que ninguém é de ferro."

Tem razão o sol e muito mais razão a chuva que, nesta manhã, achou de derramar água no mar (para que o mar quer mais água?), nas árvores, na terra e nas pessoas. E eu fiquei surpreso em ver muita gente recebendo água no rosto, nos cabelos, no corpo todo, na maior euforia, indiferente aos resfriados e às bronquites. E assim é que deve ser. A chuva também é de Deus. É uma benção, jamais uma maldição. Dia chuvoso também é dia bom, embora a meteorologia diga o contrário. Chovendo, o céu todo nublado, e as pessoas se cumprimentando assim: "bom dia!" Que saudável saudação!

Bem-aventurados aqueles que se adaptam às circunstâncias, que não reclamam, que não protestam, que aceitam tudo que acontece com sabedoria. E o que é a vida senão um constante processo de adaptação? Adaptação às mudanças. Se você já não é mais criança por que tentar vestir as roupas que já não se ajustam ao seu corpo de adulto? Tudo muda, tudo se transforma, tudo cresce a todo momento. Quem diria que este pé de flamboyant, aqui do jardim, ficaria em pouco tempo, muito mais alto do que eu? E ele chegou para cá medindo alguns palmos. Uma plantinha de nada. E que dizer da minha netinha Raíssa, que já não quer mais ficar o todo tempo no berço, mas abrir os olhos espantados para a vida?

Bem disse Platão: “a filosofia nasce do espanto”. E o espanto nasce de onde? Nasce da curiosidade. E é graças à curiosidade e ao espanto que surgiram as descobertas e as invenções. Quem não se surpreende mais, quem parou no tempo e no espaço, morreu. Velho é aquele que só olha para trás, que perdeu interesse pela vida, que costuma dizer: "no meu tempo não era assim". Claro que não era. E felizmente não é mais. A vida está se rejuvenescendo a toda hora na alma de quem ama. Está aí esta inspirada e sábia sentença: “Aprenda como se a vida aqui no mundo fosse eterna, e viva como se a vida fosse acabar, amanhã." Não vejo conselho mais sábio do que este.

Mas comecei a crônica falando de chuva, e eis que o sol já está aqui perto da janela, me oferecendo luz e calor. Bem-vindos, portanto, o sol e a chuva. E por que não saudar também o vento? É ele quem faz a natureza dançar. Graças a ele, o meu adolescente pé de flamboyant está acenando agora mesmo para mim. Para mim? Que pretensão egoísta! O pé de flamboyant acena para a vida. A vida que está amanhecendo no rosto espantado de Raíssa.

Aliás, tudo na vida é uma questão de saber ver. Tudo está dentro de nós. Valeu aquela placa que coloquei no jardim: "a beleza está nos olhos de quem a vê." E Jesus foi maravilhoso quando sentenciou: "se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará." Bondade e beleza precisam andar juntas, como boas e inseparáveis irmãs a caminho da verdade. E me desculpe o leitor esta conversa, não digo fiada, mas confiada. É mais um desabafo lírico do cronista. E tudo por causa daquela chuva, manhã cedo.

O AUTOR
Carlos Romero é escritor, jornalista, membro da Academia Paraibana de Letras e tem a crônica como forma literária favorita. Um estilo no qual retrata com forte dose de lirismo e humor suas sensíveis observações acerca do cotidiano.
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