Reflexão para a Páscoa - Oração de um cronista (2013)



E, de repente, me veio aquele súbito desejo de fazer uma oração. Não como aquela do “Pai Nosso”, com a qual o Meigo Nazareno ensinou o mundo a orar, e muito menos como a de São Francisco de Assis, um hino à solidariedade e ao perdão. Mas, uma oração que começaria assim:

Senhor, dá-me força, para um dia, domar o orgulho e outros vícios que ainda há em mim. Que eu seja como o sol, que ignora a escuridão, que só faz iluminar nossos caminhos. Que eu seja a pedra do caminho, humilde, mas que sustenta o edifício. Que eu seja como aquela ponte, vencendo os obstáculos do caminho ou aquele túnel permitindo nossa passagem entre montanhas. Que eu seja a água, cuja persistência vence a pedra dura. Que eu seja caminho, jamais obstáculo. Que eu seja como as flores, sempre sorrindo para a vida.

Que eu seja como o vento, sempre trazendo alegria e suavidade para as pessoas tristes. Que eu seja como as nuvens a deslizarem serenas, lá do alto, esquecendo as sombras cá de baixo.

Senhor, como gostaria de ser como a chuva, molhando com suas lágrimas toda a terra, sem particularismo, sem preferências, sem discriminação.

Que eu seja como o mar, cujas espumas lavam nossos pés, para depois morrerem, que a vida é um eterno vai e vem, de saudades e de esperanças.

Que eu seja como a grama macia, que não dá flores, mas na sua humildade serve de tapete para os homens.

Que eu seja uma montanha, que lá do alto, sorri o seu sorriso de transcendência. Que eu seja o outro para saber como é que ele nos vê. Que eu olhe sempre para o espelho para saber como vai o meu rosto, a minha imagem. Se é um rosto de tristeza ou de alegria, de cara fechada ou de semblante aberto. Que eu esqueça as rugas do corpo que envelhece, porquanto o espírito é sempre jovem para os que amam tua Verdade, aquela que nos consola e nos liberta.

Que eu esteja sempre atento no caminhar, vigilante no discernimento, atento aos obstáculos e jamais olhando os outros sem aquele olhar de compreensão. Que eu esteja sempre vigilante para não cair em tentação como nos ensinaste. Que eu tenha sempre a humildade necessária para ser um crítico de mim mesmo.

Os sorrisos da Natureza


O sorriso é uma terapia. Dizem que quando a mãe vê o filhinho dando o seu sorriso inaugural, em seus braços, ela esquece os sofrimentos do parto, e da gravidez, e também sorri, feliz da vida...
Veja o mar e observe o seu sorriso de espumas. E já imaginou se o nosso sol não nos iluminasse com o seu sorriso de luz, isto é, com o seu “solriso”? ... A mesma coisa falaríamos das estrelas. E que dizer das plantas, que sorriem através das flores e das cores?

Nossas mães

Somos nossas mães. Descreva-me a mãe que você teve e eu direi como és. Se você teve uma mãe dura, sem carinho, sem sorriso, que castigava, cheia de mau humor, é evidente que jamais será um cavalheiro de fino trato, e sim um sujeito grosseiro, amargo e cético.

Da minha mãe trago imorredouras lembranças. Como está viva na minha saudade... Nunca me bateu, nunca me falou com grosseria. E o bom mesmo era quando a asma me atacava e ela ficava cuidando de mim, altas horas da noite, contando histórias e passando a mão pela minha cabeça ardendo de febre.

A boa mãe é Deus feito mulher. E como foi importante o incentivo que ela me deu para gostar de leitura. Lia livros para eu ouvir. Fazia versos para eu ler, decifrava palavras cruzadas e charadas para eu adivinhar. Uma perfeita intelectual. Não me esqueço daquele romance que ela leu em voz alta, cuja leitura provocou um dilúvio de lágrimas em meu rosto de menino. Tratava-se de “Amor de perdição”, de Camilo Castelo Branco. Não me esqueço, também, de outro livro que ela tachou de proibido. Tratava-se de “Menino de Engenho”, do nosso José Lins do Rego. Depois vieram os de Monteiro Lobato e assim por diante.

Minha mãe nasceu para ser escritora. E como gostava de música clássica. Quando jovem, tocou flauta. Muitas vezes chegava a chorar ao ouvir os concertos de Mozart e Beethoven. Lágrimas escorrendo em seu rosto já cheio de rugas. Mas, não ficava apenas em ouvir. Conhecia bem a vida dos grandes compositores. Não foi sem motivo que estimulou as duas filhas para estudar piano. Mulher de muita sensibilidade, de muita imaginação e de muito amor à vida, minha mãe Piinha, diminutivo de Pia, foi o maior estímulo que recebi na vida. O maior presente que Deus me deu, que está sempre presente nas minhas saudades. E vez por outra me aparece em sonho.

Sou ainda dos que colocam retratos na parede das pessoas queridas que se foram deste mundo. Acho que a presença delas nas fotos é um estímulo. O esquecimento mata a saudade. Não ama aquele que esquece a pessoa amada que se foi deste mundo.

Minha mãe foi uma heroína. Muito jovem ainda, submeteu-se a concurso público para telegrafista, e isto numa época em que mulher era para ficar em casa cuidando do marido.

Levava uma vida sóbria. Alimentava-se pouco e estava sempre de bom humor. Não dispensava o ponche de cenoura com laranja e beterraba. Soube vencer a velhice com a jovialidade de seu espírito. Adorava vestido estampado, de cores alegres. Sempre dizia: “meu filho, velhice quer trato”. E com essa disposição, atravessou a fronteira dos cem anos.

A verdade é que me vejo nela. Tivemos muita coisa em comum. Daí eu dizer: somos nossas mães, e saber que quando entramos na vida é através delas, que nos dão o primeiro leite e o primeiro abrigo. Resta-nos em agradecimento lhes desejar muita paz e que continuem velando por nós.

Trem das cores


A beleza da vida está na diversidade. Já imaginou o mundo com uma cor única? Que monotonia! O mundo vestido só de branco, só de verde, só de amarelo, só de preto, e assim por diante. Deus soube vestir magnificamente o nosso mundo. É verdade que ele carregou mais no verde e azul. Veja o céu, o mar, os lagos e a nossa vegetação. O astronauta russo ficou besta quando viu o nosso planta, lá de cima de sua astronave. E gritou: “A Terra é azul”.

O vermelho é a cor do alerta, do perigo, da vida. Lembrar que Deus fez o nosso sangue vermelho, justamente, para chamar a atenção. E ninguém pense que tem “sangue azul”.

E o que dizer da cor roxa? Alguns, acham-na triste... E a branca? Esta simboliza a pureza. Daí as batas dos médicos, cirurgiões, enfermeiros e enfermeiras serem brancas. Esta cor mostra logo qualquer sujeira. Mas isso não quer dizer que a cor negra seja suja, pois a sujeira depende de quem a vestiu. A cor negra apenas esconde mais o que está sujo.

Os padres outrora usavam batinas pretas, pois preto é símbolo de solenidade, de introspecção. A noite se veste de cor negra, cujas estrelas não conseguem apagá-la. As vestes dos homens da Justiça são pretas, e, outrora, as pessoas usavam luto preto. As viúvas, coitadas, tinham que o usar o chamado luto fechado. Costume que, hoje, praticamente está fora de moda. Afinal, o sentimento não está na vestimenta, sim no coração.

E o amarelo? Dizem que é a cor do desespero. Não sei a razão. Deus soube muito bem vestir o mundo das mais variadas cores. E fez esta exposição no arco-íris, onde estão expostas as sete cores e suas nuances.

Vermelho, branco, preto, amarelo, verde, roxo, cinzento, azul, todas têm sua significativa beleza. Mas a cor mais importante mesmo, é aquela que simboliza a vida. A cor vermelha, a cor do sangue, a cor que um acupunturista, certa vez, recomendou que eu usasse...

A Divina Arte



A música a que me refiro é a chamada Divina Arte, ou música erudita, que nos faz transcender, mas que, infelizmente, aqui não tem a divulgação que devia ter. E me vem a indagação: será que nos nossos colégios estão incentivando os alunos para o conhecimento da música erudita?

Mas, afinal, quem despertou meu gosto pela música clássica? Foi uma senhora chamada Santinha de Sá, esposa do maestro Gazzi de Sá, presidente da então Escola de Música “Anthenor Navarro”, que, já tem quase 90 anos. E como iniciou ela a primeira aula?: colocou na radiola uma fuga de Bach.

Explicou o que era fuga e fez interessantes considerações em torno da vida do compositor. Santinha começou o nosso curso com o maior compositor de todos os tempos. O filósofo Amiel, no seu “Diário Intimo”, dizia que “Bach é Deus, e Beethoven o homem”.

A verdade é que aprendi muito com dona Santinha. Depois desejei aprender piano, cuja professora foi minha irmã Ivone. Mas só fiquei no Schmoll.

O que eu gostava mesmo era de ouvir música clássica. Na antiga Rádio Tabajara cheguei a criar o programa “Paisagem Sonora”, quando divulguei grandes partituras. Os telefonemas choviam, as moças pediam Chopin e o desembargador Flósculo da Nóbrega, “Nabuco” de Verdi.

E via como o povo gosta de música clássica. O que falta é educação, uma maior intimidade. E uma orquestra sinfônica é excelente instrumento para tal objetivo. E sabe quem estimulou a fundação da nossa Orquestra Sinfônica? Foi um concerto da Sinfônica de Recife, sob a regência do maestro italiano Fitipaldi, no cinema Plaza. A assistência vibrou com a orquestra visitante.

E o governador, jurisconsulto e compositor Tarcisio Burity foi quem deu maior incentivo à Sinfônica, chegando a importar grandes músicos, inclusive o renomado maestro Eleazar de Carvalho.

A música erudita foi e é minha grande paixão, meu oxigênio. Ela é minha segunda religião. É difícil não transcender ouvindo a Nona de Beethoven ou continuar triste escutando a Alla Rústica de Vivaldi. Não sei tocar nenhum instrumento, nem ler partitura, mas não troco minha sensibilidade pela de muitos músicos que fazem da música apenas uma profissão. Eu e a música. Sem ela o mundo perderia todo encanto.

E por falar nisso, tenho notado pouca atividade de nossa Orquestra Sinfônica. Não se convidam mais solistas e maestros de fora, não há aquela divulgação da música erudita, como havia, antigamente. O que será que está acontecendo, hein, meu amigo Luiz Carlos Durier? Será a crise? Que falta faz o incentivo que foi dado, outrora, a nossa orquestra, que chegou a ser uma mas melhores do país...