"A difícil arte da viuvez"


(Ana Adelaide Peixoto Tavares)

O livro "A ridícula ideia de nunca mais te ver" - de Rosa Montero, escritora espanhola que adoro (A Louca da Casa), sentiu que a história de Marie Curie dialogava com a sua própria. Livro a respeito também da morte, mas sobretudo dos laços que nos unem ao extremo da vida.

Acrescentei a minha vida também a essas belas e originais histórias de mulheres sábias e poderosas. E que, antes e dolorosamente, também perderam seus maridos, sofreram, falaram sobre isso, e seguiram.

Sim, é preciso fazer algo com a morte. É preciso fazer algo com os mortos. Depositar flores. Falar com eles. Dizer que você os ama e que sempre os amou…

Gritar para o mundo. Escrever num livro… "que pena ter esquecido que você podia morrer, que eu podia te perder". Se tivesse essa consciência, eu teria te amado não mais, mas melhor.....

O luto é algo estranho… Mesmo que o tempo passe, a dor da perda, nos momentos em que surge, continua parecendo igualmente intensa. A dor é disparada com menos frequência e você pode lembrar seu morto sem sofrer. Mas quando a tristeza surge, e você não sabe muito bem por que surge, é a mesma dilaceração, a mesma brasa…

Quem sabe com o tempo a mordida amenize, ou não. Isso é algo de que ninguém fala; talvez seja um daqueles segredos que todos guardamos…

Talvez nós, viúvos, nos sintamos estranhos ou péssimos viúvos por continuarmos sentindo a mesma dor aguda depois de tanto tempo. Talvez tenhamos vergonha e pensemos que não soubemos nos "recuperar".

Mas já vou dizendo que não existe recuperação: não é possível voltar a ser quem você era. Existe a reinvenção, e não é algo ruim. Com sorte, pode ser que consiga se reinventar melhor do que antes.

Afinal de contas, agora você sabe mais…


"A crítica literária ilumina texto e leitor"


(Ângela Bezerra de Castro)

Existem obras literárias que formam com a crítica e a história espécie de conjunto a que recorre o leitor, em seu esforço interpretativo, com férteis e valiosos resultados. Esse conjunto se constitui, por assim dizer, em etapas interdependentes e harmoniosas, de modo que as tantas possibilidades ou estágios de leitura complementam e aprofundam o entendimento da realidade da ficção.

O repouso do destino


(Linaldo Guedes)

Bússola

meus instrumentos de navegação
estão em meus próprios pés

e ele navega como um pequeno barco
indo de um lado a outro de oceanos

sem enjoos, negando os eu te amos
indo para lá, indo para cá

ao sabor dos ventos, tempestades
ancoradas no fundo do lar

Uma poética da lucidez


(Expedito Ferraz Jr.)

Se não é tarefa fácil avaliar a figura literária de um escritor do passado, o que dizer do desafio de comentar a contribuição de um poeta do nosso tempo? No primeiro caso, o tempo costuma ser aliado do trabalho crítico, que consiste em aferir-se à repercussão do estilo do autor ao longo dos anos, em investigar-se quanto sua obra tem sido lembrada e qual a sua relevância na engrenagem complexa a que Antonio Candido chamou de literatura como sistema. Já no caso dos nossos contemporâneos, não podemos contar com o auxílio na maturação das nossas impressões, o que, sem dúvida, é uma dificuldade a mais a embaraçar o trabalho do leitor. E, no entanto, essa dificuldade pode ser convertida em favor, se não da objetividade, da autonomia propiciada pela inestimável singularidade desse ângulo de visão - o do tempo presente - em que os artistas podem ser flagrados ainda em plena desordem e imprevisibilidade de sua oficina, cuja produção acompanhamos em tempo real e cujos resultados medimos tão-somente com a régua sincrônica dos efeitos produzidos por cada um dos poemas que vão se acumulando.

Uma vida que anda em círculos. Circo?


(Hermano Almeida)

Tudo já foi dito. Vivemos de variações do mesmo tema ou outros temas já variados.

Novamente Anne Frank. A conhecida estória da menina e seu diário num abrigo. Os livros sagrados (são?) estão aqui. A ciência, aqui. A tragédia do homo sapiens, aqui. Todos fazem uma pergunta. Se nossa vida pode ser bem melhor, por que é tão complexa?

Música para nós, médicos


(Fernando Lianza Dias)

Música é fator de encantamento para todos, na diversidade de idades, épocas e acontecimentos. Para nós, médicos, que vivenciamos o sofrimento alheio, representa não apenas a busca da beleza, mas também a conquista de tranquilidade, relaxamento e conforto.

O Flautista da Janela


(Ana Adelaide Peixoto Tavares)

Há um ano que estou em nova morada. Mais perto do mar. Mais perto do parque. Mais perto. E mais longe também. Mais longe dos meus 35 anos na rua dos oceanos. Dos nascimentos e das mortes. Do fechamento de um ciclo. E aqui, da abertura de outros. E com as paredes em branco. E isso é bom. E difícil também. Mas, mais bom!

Os Miseráveis em Filme


(Milton Marques Júnior)

Revi, esta semana, o musical baseado em Os Miseráveis. Dessa segunda vez me pareceu melhor. Não estou dizendo que é um filme ruim, muito pelo contrário, trata-se de uma produção excelente, do ponto de vista do visual, do elenco e, sobretudo, do tratamento dado àquilo que é o cerne do romance de Victor Hugo: a injustiça, que se divide em cega observância e cumprimento da lei, cuja encarnação é o inspetor Javert, e em acumulação de riquezas, que fecha os olhos aos desvalidos e necessitados, ajudando a criar uma sociedade de submundo. O filme dirigido por Tom Hooper (UK/USA, 2012) é, portanto, uma obra a não ser esquecida.

Odeio o que me faz não LER


(Ricco Farias)

Ler é uma das melhores condições em que me vejo. Ler faz parte de minha saúde mental e profissional. LER, não. Ela faz oposição ferrenha e dolorosa ao movimento de passar uma página do livro, ao ato de acessar as plataformas digitais, e ao toque dos dedos nos nossos teclados contemporâneos, virtuais.

Eu tomo conta do mundo


(Clarice Lispector)

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.