Jornalismo


(Silvino Lopes)

Foi não foi, estou indo com a cara na cara do Juca que eu conheci menino, morando na mesma rua onde eu morava. Um dia, contando com o concurso do Cabeção acertamos de fundar um jornal, isto no ano remoto de 1907. E o órgão veio à circulação com o seu titulo apavorante: "O Mofo".

"O cotidiano me fascina"


(Antônio David Diniz)

“A fotografia, é uma invenção do século XIX que, pela primeira vez, era possível registrar o passado sem ser apenas com palavras ou imagens pintadas. A invenção da fotografia foi o nascimento de uma nova linguagem, uma nova forma de comunicação visual. Numa época em que bilhões de fotos são tiradas por ano, os fotógrafos têm talento artístico para imortalizar as imagens captadas do nosso cotidiano, tornando-se cronistas de uma época"

esta lua


(Sérgio de Castro Pinto)

esta lua turca cai feito uma luva
na praia da urca, na pedra da gávea.
esta lua cheia é um túrgido ubre
espargindo leite sobre a madrugada.
pálida e sem luz esta lua minguante
é leite com água, chama dos amantes.

Eu e a Psicanálise


(Alcione Albertim)

Há quatro anos decidi começar o curso de Psicologia, levada pelo desejo de expandir meus conhecimentos e minha área de atuação profissional. Queria estudar Psicologia Analítica, o que me levou à Psicanálise e, consequentemente, à Psicologia. Poderia ter seguido a minha formação psicanalítica sem necessariamente ter feito o curso de Psicologia, mas minha sede de conhecimento me impulsionou a querer ir além, e entender a Psicanálise dentro da Psicologia.

Encantadas poções de palavras


(Ângela Bezerra de Castro)

O telefone iluminando a manhã. E a pergunta contida, alterando levemente a voz quase imperceptível, mas de dispensável identificação.

— Leste os jornais de hoje?

Um atraso na entrega. Ainda não lera. Que traziam de especial?

— É Sindulfo. Escreveu sobre minha besteirinha de ontem, dizendo umas coisas. Não sei. Estou sem jeito.

Como eu insistisse, pude escutar, em seguida, as palavras entusiásticas às quais não se ajustava o tom de voz. A voz traía a emoção da surpresa. Do espanto. Um homem encurralado pelo reconhecimento.

Habituado a fazer transitar pelos seus registros uma multidão, a Paraíba inteira, o cronista experimenta inesperadamente outra situação. Agora, ele é personagem e matéria para o companheiro de ofício que, extasiado ante a qualidade de sua criação, com ele se regozija.

Gonzaga sabe de seus inumeráveis leitores. De quantos o esperam para o encontro marcado de todas as manhãs. Mas este traz de especial a responsabilidade da permanência. o peso da leitura escrita que analisa e avalia. Embora apaixonada a expressão, não está ali o elogio gratuito, vazio. O homem culto, de sensibilidade, isenta-se de "arrumar palavras convencionais na conformidade das regras". Aprendeu com o poeta (e o mar, agitado ou sereno, também lhe diz) que apenas “navegar é preciso". Por isso, entregou-se à correnteza. Deixou-se levar. Mas não, sem antes estabelecer o rumo e a bandeira da descoberta.

No alto do mastro, a inscrição definitiva: Um Novo Trevisan. E o companheiro de geração exposto, no processo comparativo que a translação implica.

Pela síntese intuitiva e, reservando-se o prazer da alegria, Sindulfo dispensou-se do detalhamento analítico. Das formulações teóricas — necessárias — porém, muitas vezes, bloqueadoras da sensibilidade e da comunicação. Preferiu a confiança do gesto espontâneo, para surpreender o menino acanhado em suas artes.

Não falou de adesão à síntese renovadora, do mesmo tom pungente, da obsessão pelo essencial. Não referiu a identidade de tema, de situação ou de personagem. Nem mesmo, a preocupação com a fragilidade e desamparo do homem pelas ruas da cidade. Não houve tempo.

Pois, mal começou a ler, já estava no meio da rua "sem um pingo de sangue". Dividindo com seu Luís e a mulher gorda o mesmo agoniado espaço e a pesada expectativa. Conduzido pela movimentação do diálogo, pela tipificação exemplar, pela certeza do verossímil. Completamente envolvido pela urdidura do desfecho (de ouro?) que valoriza e aprofunda o acento trágico da narrativa, deslocando para seu centro o inesperado e silencioso personagem. Desarticulando a perspectiva estratificada do perigo.

Assim, um meninote vindo não se sabe de onde, com apenas um gesto e dizendo quase nada, toma conta de tudo. Resolve, com um tempo de verbo, as perguntas que ficaram no ar. E abre com o seu silêncio a voragem, o precipício.

Lição de mestre a indicar que a morte em si não constitui o verdadeiro problema. Mas a fragilidade do desespero ou a gravidade da aceitação.

Que importa o convencional limite entre as formas narrativas ou sua discutível hierarquia?

Diante deste meninote, que o Mago Gonzaga faz aparecer e crescer com suas encantadas poções de palavras, é outra a questão que se coloca. A de sua inflexível vocação de narrador, transcendendo o limite jornalístico da crônica que fosse apenas relato, registro do episódico.

É sempre assim, quando encontra um motivo e o tempo está a seu favor. Senhor das palavras em suas "mil faces secretas". Reinventando a realidade, no reino da linguagem. Salvando, na forma ou na força do dizer, a substância humana que o cotidiano reduz e amesquinha.

Este Momento na Rua não será, portanto, uma realização isolada no universo já consolidado do cronista da terra. Permito-me associá-lo a outros em que o lirismo trágico domina por completo a narrativa. Conto ou crônica, nesta direção inexiste a possibilidade de falha para o escritor. Sobretudo, se a matéria provém de uma daquelas criaturinhas deserdadas, a exemplo do que ocorre em Printed e Só fez olhar. Como em várias outras, onde Nino se vai fracionando ou multiplicando na expressão densa e comovida que é, a um só tempo, sentimento e denúncia. Consciência e recusa da desordenada ordem social. Realização lírica na concepção teórica mais atual.

Gonzaga já não pode conter esses meninos — personagens que lhe saltam dos dedos para viver um instante de inocência, eternizado no mais pungente desamparo. Será esta a vertente mais significativa de sua obra, longe ainda de ser esgotada. Mas é provável que o autor, diversificando tanto seus temas, ainda não se tenha apercebido de quanto pode esta infância em suas mãos.

(Jornal O Norte, 4/5/87)


"Criações que pululam na mente"


(Milton Marques Júnior)

João Pinto é calado. Olhos sempre abertos e perscrutadores, olhando para você como se quisesse ver na sua alma. Magro, mas sem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral; pele acobreada, parece saído de um rabisco das grutas da Serra da Capivara. Tenso, cada músculo seu reflete o conflito de quem está sempre examinando mundo.

O Beijo


(Eduardo Varandas Araruna)

A maior parcela da minha vida foi dedicada à defesa dos hipossuficientes. Lutei contra a exploração do trabalho infantil promovendo a primeira ação coletiva contra a exploração sexual no Brasil e uma das poucas do mundo. Integrei a comissão que fundou, junto com colegas, a coordenadoria nacional de combate ao trabalho escravo. Temas áridos perpassaram pela minha mesa e todas as lesões, sem exceção, foram denunciadas à Justiça com lisura e bravura. Anos se sucederam na defesa inquebrantável dos direitos sociais com embates, sofrimentos e algumas vitórias.

Amanhecer em Serraria


(José Nunes)

Retornar às paisagens onde desfrutamos bons momentos ajuda-nos a retocar sonhos que, ao passar do tempo, estão acomodados no recanto da memória. Portanto, é formidável regressar a certos lugares que nos são íntimos para que os poemas não se percam na composição dos capítulos da vida.

O Demônio do Meio Dia


(Ana Adelaide Peixoto Tavares)

Há algo de ausente que me atormenta (Camille Claudel)

Esse é o título do livro de Andrew Solomon sobre Depressão. É um livro referência para esse estado d´alma que se tornou a epidemia do século XXI. Mas não só.

Um tema tabu e que viveu às escondidas, hoje se abrem os véus sobre a do-ença. Perde-se o medo e o pudor de se falar sobre os transtornos de ansiedade e outros picos esquisitos do ser humano. Vi um domingo desses o Dr. Dráuzio Varela em um quadro do Fantástico – Não tá tudo bem, mas vai ficar. Entrevistando famosos e anônimos, que falavam das suas experiências na outra margem do rio. Uma tentativa de mostrar que esses transtornos acometem a todos. Falar é preciso!

"Arquitetura da linguagem"



(Ângela Bezerra de Castro)

“Perguntou a flor: o aroma
acaso me sobreviverá?

Perguntou a lua: alguma
luz guardo depois de morrer?

Mas o homem disse: por que acabo
e fica entre vós o meu canto?"

"Esta Meditação ante um poema antigo (*) demarca, para a natureza humana, o lugar soberano que ela ocupa no universo. A imensidão, o mais intenso esplendor, nada se sobrepõe, nada se compara ao milagre da consciência; à dignidade de pensar; à transcendência do espírito; à consciência moral que escolhe como ponto de referência a infinitude do céu estrelado; à arquitetura da linguagem que estrutura o significado e a permanência do Ser.”



“Há muito se coloca a impossibilidade do limite entre a realidade e a ficção, sob a forma do questionamento repetido: se é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida. Constatando-se muitas vezes que a realidade vivida se apresenta bem mais fantástica e surpreendente do que a imaginação.



“No desafio contra o tempo, o limite biológico impõe ao homem a condição de perdedor. Impossível alterar o ciclo estabelecido: nascer, crescer, envelhecer e morrer na certeza da expressão poética que sintetiza, pelo estranhamento da metáfora, essa tragicidade de existir para a morte.”



“O Epitácio Pessoa que está na avenida, no pedestal, no monumento, na escola, no Palácio da Justiça, na Assembleia Legislativa, na memória culta e no imaginário popular, ressurge pelas suas palavras, cada vez mais digno da homenagem infinita.”

(Excertos literários de autoria de Ângela Bezerra de Castro)

(*) Pablo Antonio Cuadra, poeta e ensaísta nicaraguense (1912 - 2002)