Paraíba que brilha


(Germano Romero)

A Paraíba intelectual, artística, musical, há muito desafia o preconceito oriundo da superficialidade leviana dos ignorantes. O indiscutível valor de notáveis conterrâneos destrói por si só a arrogância dos que insistem em nos menosprezar.

Assim, faz-se completamente desnecessário ressaltar Augusto dos Anjos como um dos responsáveis pelo nível linguístico de repercussão mundial em que se colocou a poesia paraibana.

"O mundo é uma frase"


(Chico Viana)

Esse é o título do livro em que James Geary (foto), editor na Europa da revista Time, faz um estudo sobre os aforismos ao longo do tempo. Ele mostra a evolução desse gênero desde quando era praticado por sábios e profetas até os dias de hoje.

Seu interesse é estabelecer a trilha de uma jornada do espírito em que se revela algo de comum a todos os homens. Segundo ele, “os aforismos nos reafirmam que alguém passou por ali antes”. Como animais filosóficos que somos, de um modo ou de outro sempre participamos dessa viagem – alguns com refinamento, lendo os grandes autores; outros com o que é possível aproveitar na literatura miúda que atualmente recheia as estantes das livrarias.

A eterna sonoridade



(Renata Simões)

Ele se definia como um missionário, defensor da educação e da cultura. Mas esse paraibano de Itaporanga, nascido em 13 de agosto de 1962 e que se tornou o primeiro Doutor em trombone do Brasil, ia muito mais além: defendia a construção do ser humano, a capacidade de superação que cada um de nós pode ter; exemplificava a disciplina, o respeito por sua profissão, a responsabilidade de tornar importante cada música que tocava, fosse nos grandes palcos internacionais ou na simplicidade das festividades pelo nosso sertão afora.

Augusto para todos os séculos


(Ângela Bezerra de Castro)

O centenário é da morte de Augusto dos Anjos, mas o tema é a vida. O tema é "o Futuro em diferentes / florestas, vales, selvas, glebas, trilhos, / Na multiplicidade" da poesia, semente da árvore arrancada, antes que sua primeira safra pudesse ser colhida. Poesia-semente em que se cumpre a antevisão do eu, na certeza com que se irmana ao Tamarindo: "Depois da morte, inda teremos filhos!".

Fugindo à tradição editorial, que se fixou no Eu e outras poesias, a Biblioteca Mário de Andrade e a Edições Narval preferiram o Eu original, seleção e edição do autor, lançado no Rio de Janeiro em 1912. Essa escolha confere um significado bem particular à publicação e à homenagem que representa. Fixando-se na primeira e única edição contemporânea do poeta, traz Augusto por ele mesmo. Redivivo.

Três delícias de epigrama


(Milton Marques)

Ao pegar uma cueca com a braguilha costurada,
me pergunto de quem foi essa ideia tresloucada.
Que razão é que existe pra fechar o bom caminho,
pra deixar aprisionado nosso amigo passarinho?
Eu não sei o que ocorre com quem o tecido fia,
será contra a natureza? Desconhece anatomia?

Essas bobagens


(Germano Romero)

Os pedaços de melão desmanchavam-se na boca. Doce néctar a inundar todo o nicho de papilas. Que prazer. Logo pus-me a imaginar as mandíbulas da caveira triturando aquela polpa, deglutida pouco a pouco pela goela agradecida.

Salivares atuavam no preparo que descia ao estômago ansioso, próxima etapa digestiva. Que perfeição. E as fatias engolidas se faziam cachoeiras em suco deleitoso escorrendo pelo esôfago.

As Valas do Oitavo Círculo do Inferno


(Milton Marques)

O Oitavo Círculo do Inferno é dividido em 10 valas ou covas concêntricas, chamadas por Dante Alighieri de “Malebolge” (Canto XVIII, verso1), onde se encontram os fraudulentos. Em cada vala, são punidos os que cometeram crimes específicos – rufiões e sedutores ( Canto XVIII, vala 1), os aduladores, que enganam com falsas promessas (Canto XVIII, vala 2) ; os simoníacos (Canto XIX, vala 3), os magos e adivinhos (Canto XX, vala 4), os interceptadores, traficantes de influência que se aproveitam dos cargos públicos (Canto XXI e XXII, vala 5)...

No Canto XXI, onde se encontram os “barattieri”, os interceptadores de objetos, traficantes de influência, que tiram proveito dos cargos públicos que ocupam, Dante se refere à mudança de opinião em favor próprio, quando, em vida, o agora condenado, era movido pelo dinheiro:

“del no, per li denar, vi si fa ita”

“do não, por dinheiro, ali se faz sim” (verso 40)


O acompanhamento de Dante e Virgílio, ao longo da 5ª vala, por dez diabos, já nomeados no Canto XXI – Alichino, Calcabrina, Cagnazzo, Barbariccia, Libicocco, Draghinazzo, Cirïatto, Graffiacante, Farfarello e Rubicante (versos 118-123) – dá azo ao poeta florentino a fazer uma referência irônica a essa companhia, trazendo à tona um dito popular de muita verdade:

“Ahi fiera compagnia! ma ne la chiesa
coi santi, e in taverna coi ghiottoni.


Ai, fera companhia! mas na igreja
com os santos, na taberna com os glutões (Canto XXII, versos 14-15).


Todo esse Oitavo Círculo, onde se encontram os fraudulentos, nos mostra a atualidade do texto de Dante, a quinta vala, sobretudo, aplicando-se como uma luva ao Brasil. Veja-se, por exemplo, que os “barattieri” são os que se aproveita dos cargos públicos para a autolocupletação e que é impossível alguém se acompanhar frequentemente das mesmas pessoas e não adquirir os seus hábitos. Ou melhor, as pessoas buscam, frequentemente, as companhias daqueles com quem se afinam.

Do ponto de vista do ritmo, foi ótimo perceber que, com um decassílabo e meio, dá para formar, sem perda na tradução, um belo e harmonioso heptassílabo duplo, meio caminho andado para um epigrama:

Na igreja com os santos, na taverna com os glutões,
Sob a luz, honestidade; já nas trevas, uns ladrões.

Ah, estes condenados estão imersos em pez fervente. Dante dando ideia...


Canções para o tempo

(Clóvis Roberto)

“Não me iludo/Tudo permanecerá do jeito que tem sido/ Transcorrendo/ Transformando/ Tempo e espaço navegando todos os sentidos”. É o que diz o mestre Gilberto Gil em “Tempo Rei”. É que se há uma coisa que não muda é a transmutação do tempo. Revolucionário, ele tem poderes diversos. É vida, morte, saudade, renovação, decepção, fúria, bálsamo, cura.

Carlos Romero, meu pai



(Carlos Augusto Romero Filho)

Quando nasci, ganhei seu nome: Carlos Romero. Não sei se foi uma escolha dele ou de mamãe. Só sei que sempre tive orgulho desse nome. Quando eu era menino só queria ser como ele. Achava-o bonito,inteligente. Sempre foi meu ídolo, meu herói. Quando mamãe partiu, muito precocemente, eu e Germano, meu irmão caçula, sofremos muito. Ficamos os três sem ela. Papai dizia que éramos uma “tristíssima trindade”. Sem ela, mas lá estava ele no centro, para nos orientar, nos guiar. Era nosso sol. E assim seguimos nosso caminho com ele. Os primeiros anos muito difíceis, mas de grande aprendizado. Nessa época, escreveu um livro: A Dança do Tempo. Um livro que para ele, representou uma verdadeira catarse, transformando sofrimento em arte. Um livro que conta uma parte da história dele, da nossa história também. Um livro escrito com o coração.

"O Lamento das Coisas"



(Ângela Bezerra de Castro)

Escrito em 1914, é um dos mais destacados sonetos de Augusto dos Anjos, incluído entre os que Órris Soares acrescentou à primeira edição do EU. Pela temática atemporal, pelo enfoque único, pela estrutura perfeita, é um poema eterno que os séculos hão de repetir, como repetem os sempre atuais camonianos, em suas sínteses "de ouro" sobre as mudanças da Fortuna e os enganos do Amor.