Nossas mães

Somos nossas mães. Descreva-me a mãe que você teve e eu direi como és. Se você teve uma mãe dura, sem carinho, sem sorriso, que castigava, cheia de mau humor, é evidente que jamais será um cavalheiro de fino trato, e sim um sujeito grosseiro, amargo e cético.

Da minha mãe trago imorredouras lembranças. Como está viva na minha saudade... Nunca me bateu, nunca me falou com grosseria. E o bom mesmo era quando a asma me atacava e ela ficava cuidando de mim, altas horas da noite, contando histórias e passando a mão pela minha cabeça ardendo de febre.

A boa mãe é Deus feito mulher. E como foi importante o incentivo que ela me deu para gostar de leitura. Lia livros para eu ouvir. Fazia versos para eu ler, decifrava palavras cruzadas e charadas para eu adivinhar. Uma perfeita intelectual. Não me esqueço daquele romance que ela leu em voz alta, cuja leitura provocou um dilúvio de lágrimas em meu rosto de menino. Tratava-se de “Amor de perdição”, de Camilo Castelo Branco. Não me esqueço, também, de outro livro que ela tachou de proibido. Tratava-se de “Menino de Engenho”, do nosso José Lins do Rego. Depois vieram os de Monteiro Lobato e assim por diante.

Minha mãe nasceu para ser escritora. E como gostava de música clássica. Quando jovem, tocou flauta. Muitas vezes chegava a chorar ao ouvir os concertos de Mozart e Beethoven. Lágrimas escorrendo em seu rosto já cheio de rugas. Mas, não ficava apenas em ouvir. Conhecia bem a vida dos grandes compositores. Não foi sem motivo que estimulou as duas filhas para estudar piano. Mulher de muita sensibilidade, de muita imaginação e de muito amor à vida, minha mãe Piinha, diminutivo de Pia, foi o maior estímulo que recebi na vida. O maior presente que Deus me deu, que está sempre presente nas minhas saudades. E vez por outra me aparece em sonho.

Sou ainda dos que colocam retratos na parede das pessoas queridas que se foram deste mundo. Acho que a presença delas nas fotos é um estímulo. O esquecimento mata a saudade. Não ama aquele que esquece a pessoa amada que se foi deste mundo.

Minha mãe foi uma heroína. Muito jovem ainda, submeteu-se a concurso público para telegrafista, e isto numa época em que mulher era para ficar em casa cuidando do marido.

Levava uma vida sóbria. Alimentava-se pouco e estava sempre de bom humor. Não dispensava o ponche de cenoura com laranja e beterraba. Soube vencer a velhice com a jovialidade de seu espírito. Adorava vestido estampado, de cores alegres. Sempre dizia: “meu filho, velhice quer trato”. E com essa disposição, atravessou a fronteira dos cem anos.

A verdade é que me vejo nela. Tivemos muita coisa em comum. Daí eu dizer: somos nossas mães, e saber que quando entramos na vida é através delas, que nos dão o primeiro leite e o primeiro abrigo. Resta-nos em agradecimento lhes desejar muita paz e que continuem velando por nós.

Trem das cores


A beleza da vida está na diversidade. Já imaginou o mundo com uma cor única? Que monotonia! O mundo vestido só de branco, só de verde, só de amarelo, só de preto, e assim por diante. Deus soube vestir magnificamente o nosso mundo. É verdade que ele carregou mais no verde e azul. Veja o céu, o mar, os lagos e a nossa vegetação. O astronauta russo ficou besta quando viu o nosso planta, lá de cima de sua astronave. E gritou: “A Terra é azul”.

O vermelho é a cor do alerta, do perigo, da vida. Lembrar que Deus fez o nosso sangue vermelho, justamente, para chamar a atenção. E ninguém pense que tem “sangue azul”.

E o que dizer da cor roxa? Alguns, acham-na triste... E a branca? Esta simboliza a pureza. Daí as batas dos médicos, cirurgiões, enfermeiros e enfermeiras serem brancas. Esta cor mostra logo qualquer sujeira. Mas isso não quer dizer que a cor negra seja suja, pois a sujeira depende de quem a vestiu. A cor negra apenas esconde mais o que está sujo.

Os padres outrora usavam batinas pretas, pois preto é símbolo de solenidade, de introspecção. A noite se veste de cor negra, cujas estrelas não conseguem apagá-la. As vestes dos homens da Justiça são pretas, e, outrora, as pessoas usavam luto preto. As viúvas, coitadas, tinham que o usar o chamado luto fechado. Costume que, hoje, praticamente está fora de moda. Afinal, o sentimento não está na vestimenta, sim no coração.

E o amarelo? Dizem que é a cor do desespero. Não sei a razão. Deus soube muito bem vestir o mundo das mais variadas cores. E fez esta exposição no arco-íris, onde estão expostas as sete cores e suas nuances.

Vermelho, branco, preto, amarelo, verde, roxo, cinzento, azul, todas têm sua significativa beleza. Mas a cor mais importante mesmo, é aquela que simboliza a vida. A cor vermelha, a cor do sangue, a cor que um acupunturista, certa vez, recomendou que eu usasse...

A Divina Arte



A música a que me refiro é a chamada Divina Arte, ou música erudita, que nos faz transcender, mas que, infelizmente, aqui não tem a divulgação que devia ter. E me vem a indagação: será que nos nossos colégios estão incentivando os alunos para o conhecimento da música erudita?

Mas, afinal, quem despertou meu gosto pela música clássica? Foi uma senhora chamada Santinha de Sá, esposa do maestro Gazzi de Sá, presidente da então Escola de Música “Anthenor Navarro”, que, já tem quase 90 anos. E como iniciou ela a primeira aula?: colocou na radiola uma fuga de Bach.

Explicou o que era fuga e fez interessantes considerações em torno da vida do compositor. Santinha começou o nosso curso com o maior compositor de todos os tempos. O filósofo Amiel, no seu “Diário Intimo”, dizia que “Bach é Deus, e Beethoven o homem”.

A verdade é que aprendi muito com dona Santinha. Depois desejei aprender piano, cuja professora foi minha irmã Ivone. Mas só fiquei no Schmoll.

O que eu gostava mesmo era de ouvir música clássica. Na antiga Rádio Tabajara cheguei a criar o programa “Paisagem Sonora”, quando divulguei grandes partituras. Os telefonemas choviam, as moças pediam Chopin e o desembargador Flósculo da Nóbrega, “Nabuco” de Verdi.

E via como o povo gosta de música clássica. O que falta é educação, uma maior intimidade. E uma orquestra sinfônica é excelente instrumento para tal objetivo. E sabe quem estimulou a fundação da nossa Orquestra Sinfônica? Foi um concerto da Sinfônica de Recife, sob a regência do maestro italiano Fitipaldi, no cinema Plaza. A assistência vibrou com a orquestra visitante.

E o governador, jurisconsulto e compositor Tarcisio Burity foi quem deu maior incentivo à Sinfônica, chegando a importar grandes músicos, inclusive o renomado maestro Eleazar de Carvalho.

A música erudita foi e é minha grande paixão, meu oxigênio. Ela é minha segunda religião. É difícil não transcender ouvindo a Nona de Beethoven ou continuar triste escutando a Alla Rústica de Vivaldi. Não sei tocar nenhum instrumento, nem ler partitura, mas não troco minha sensibilidade pela de muitos músicos que fazem da música apenas uma profissão. Eu e a música. Sem ela o mundo perderia todo encanto.

E por falar nisso, tenho notado pouca atividade de nossa Orquestra Sinfônica. Não se convidam mais solistas e maestros de fora, não há aquela divulgação da música erudita, como havia, antigamente. O que será que está acontecendo, hein, meu amigo Luiz Carlos Durier? Será a crise? Que falta faz o incentivo que foi dado, outrora, a nossa orquestra, que chegou a ser uma mas melhores do país...

Cuidemos do esqueleto


Ah, se fosse possível a gente trocar de esqueleto... Assim como eu, vejo muitas pessoas curvadas, precisando de uma nova ossatura. Mas quem danado pode comprar uma? Até agora os senhores ortopedistas não conseguiram fazer a troca de nosso esqueleto, substituindo-o por um novinho em folha, zero quilômetro. Impossível uma cirurgia neste sentido.

Acho que a maioria das pessoas está indo a um especialista devido a problemas como a osteoporose, do chamado bico de papagaio, hérnia de disco, lordose, dores na coluna e assim por diante.

Mas, se fosse possível uma mudança dos nossos ossos, ouviríamos uma senhora dizendo para a outra: “minha filha, fulana fez um transplante de esqueleto. E a outra: ah, por isso que a vi tão espigadinha, tão elegante!...

Mas agora vem a exploração comercial, caso tal hipótese se transformasse em realidade. Decerto, haveria uns tipos de esqueletos melhores do que outros. Só os ricos adquiririam as melhores marcas.

A verdade é que temos de nos conformar com o esqueleto que temos. Tratá-lo dele com muito carinho, fazer os exercícios de alongamento recomendados pelos especialistas, hidroginástica, ter mais cuidado com as nossas posturas. Por isso, estou sempre ouvindo minha Alaurinda dizer: “cuidado com a postura!” Sim, é a posição errada de se sentar que estraga o nosso esqueleto. Não esqueçamos que só temos uma ossatura e que esta ossatura, quando a gente morrer, permanecerá muito tempo

Lembrar que o compositor francês, Saint Saens, com a sua Dança Macabra, prestou uma justa homenagem aos nossos esqueletos, que só voltam a se encher de carne depois do Juízo Final, segundo ensinam as religiões tradicionais. Mas, antes que Lau apareça aqui novamente com a recomendação: “cuidado com a coluna”, eu vou encerrando a crônica, desejando aos queridos que cuidem de seus esqueletos, enquanto não pudermos comprar um novo...

Desabafo lírico



É agosto saindo e setembro chegando. Agosto levando o vento e setembro trazendo o sol. Eu tenho minhas simpatias pelos dois meses. Nasci em junho, mas se dependesse de mim, teria escolhido setembro, mês primaveril, alegre, com suas flores se abrindo e nos dizendo que a vida é bela.

Se você me perguntar qual o mês de minha predileção, eu responderei em cima da bucha: setembro. Primeiro, porque não tem festa, transcorre tranquilo e silencioso. Comparado com o carnavalesco e calorento fevereiro, ou com os barulhentos junho e julho, com suas violências contra o silêncio e o meio ambiente, setembro é um mês de muita paz.

Setembro, mês de sol ameno, de clima agradável, nem muito calor, nem muito frio. Bom lembrar que foi nele que me casei com a primeira esposa, Carmen, e é nele, no dia 8, que minha Alaurinda comemora o seu aniversário.

Mas não ficam aí os motivos que dão significação a setembro, pois foi também nesse mês que o meu pai, José Augusto Romero, deu adeus ao mundo terreno. E me lembro que, de papel na mão, junto de seu túmulo, lá no Boa Sentença, eu, muito tranquilo pronunciando meu discurso de despedida, ao redor de amigos e familiares, concluí dizendo: “Até logo, papai”. E eu disse aquilo com tanta tranqüilidade e fé, que o governador Pedro Gondim, presente na ocasião, me abraçou, calorosamente, perguntando: “Parabéns! Qual a sua religião?”...

Mês de setembro... Como gostaria de ter nascido nele! Não gosto de barulhento, como fevereiro e junho, que em Alagoa Nova, onde nasci, se torna mais frio ainda.

Como eu gostaria de ouvir agora a música de um Vivaldi? Que tal a Alla Rústica? E fico imaginando o nosso jardim com suas flores e borboletas saudando o novo mês, tendo como maestro o Sol…

Para terminar, vão vocês perdoando esse meu desabafo lírico, numa época tão prosaica e tão tecnológica...