três zoo poemas


(Sérgio de Castro Pinto)

A coruja

São todo ouvidos
Os teus olhos
de vigília.

Olhos acesos,
Luzeiros
De sabedoria.

Olhos atentos
À geografia
do dentro,

és uma concha.

Um encorujado
Caramujo

Monja em voto de silêncio.

Chuva e nostalgia



(Germano Romero)

Numa chuva como essa é comum que alguém se sinta um pouquinho entristecido. Pois costuma se dizer que do frio possa vir o que chamam depressão. Em verdade, convenhamos, há uma certa nostalgia neste céu que lacrimeja, a tudo umedece e aos poetas enternece.

De outro lado, se supõe: o calor que o sol aviva na manhã iluminada é capaz de germinar um aceno de euforia. Desde já, sou réu confesso, se de crime me acusarem por louvar sem discrição toda chuva que nos chega. Ainda que ciente dos estragos que ela causa nos que pouco receberam deste mundo tão injusto, me rendo ao deleite da total contemplação.

A sabedoria faz aniversário



(Bruno Filho*)

Eu sou um homem de poucos amigos em quantidade. Sou um privilegiado por Deus na qualidade. Isso recebo de presente a cada dia e agradeço imensamente.

Aqui na Paraíba conheci essa figura humana sensacional. Um exemplo de vida, talvez o que mais se adapte ao meu temperamento e minhas escolhas na vida.

Um certo modo de ser


(Germano Romero)

Dize-me como tratas os animais que te direi quem és. Eis uma pista muito eficaz para definir o espírito e o caráter de um ser humano. Aliás, entre as atitudes que delineiam com indubitável nitidez a índole e o nível de evolução de uma pessoa, está o tipo de tratamento que dispensa aos subordinados, aos humildes, assim como aos irmãos que nada têm de irracionais.

Mestre Manoel Viana


(José Leite Guerra)

Vem-me à lembrança o professor Manoel Viana. Nossa turma o estimava pelo comportamento nivelado que mantinha conosco, sem perder a autoridade e a desabrochada ternura sobre nós. Ensinava Filosofia em nossa turma irrequieta e estudiosa; também no Curso Superior da mesma ciência das ciências (consoante se propalava) em edifício contíguo ao velho Liceu Paraibano.

Três poemas, três belezas


(Sérgio de Castro Pinto)

exílio

desarvorada,
a madeira
do móvel
desata
os seus nós e estala

a árvore que foi (no exílio da sala).
___________

as cigarras

são guitarras trágicas.

plugam-se/se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.

kipling recitam a plenos pulmões.

gargarejam
vidros
moídos.

o cristal dos verões.
___________

o homem conduzindo a
máquina de fotografia


na máquina
a paisagem é intestina
(o fora está dentro),
não pode mostrar-se ainda.

a máquina
guarda o que havia fora
e o homem a conduzindo
conduz duas memórias:

uma a da máquina (mais dentro)
e a outra a do homem (mais fora).

São demasiado pobres os nossos ricos


(Mia Couto)

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

Amorosa presença



(Thamara Duarte)

Na rede, na vida e na lida diária eis ele, com sua amorosa presença!

Ganho lambeijos, "pãozinho amassado" e me derreto toda. Corro, para não perder a captura do melhor ângulo deste filhão.

Miau, miau faz o meu gatinho, o meu Bebé, o meu Betinho!

Só para não dizer que não fui explícita! O nome é, simmmmm, uma homenagem; um bem-querer a um dos homens mais humanos, solidários e belos que habitou este Cosmos.

Saudade intensa de Herbert de Souza e do meu Brasil de antes!
Vontade imensa de ver o Brasil futuro, que já está bem próximo de (re)nascer...


Antigamente



(Chico Viana)

As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, já não seria um?).

Outro dia eu estava listando uns termos que ouvia quando era menino e que hoje praticamente não se dizem mais. Alguns se tornaram esquisitos; outros preservam um sabor que nos desperta o desejo de resgatá-los.

Renasce uma livraria

(Germano Romero)



Emmanuel é considerado o eminente guia espiritual de Chico Xavier, o maior médium de todos os tempos. Nos 500 livros publicados por Chico, sem se dizer autor de nenhum deles, mais de 100 foram ditados por Emmanuel, através da psicografia. Dos mais de 60 milhões de livros vendidos, traduzidos em 30 idiomas, o “santo” de Uberaba não ficou sequer com um centavo para uso pessoal. Que diferença de outros religiosos...

O cronista Carlos Romero costumava enfatizar em textos e palestras que o Espiritismo nasceu de um livro. Sim, “O Livro dos Espíritos”, publicado por Allan Kardec, há 162 anos, em Paris, fundava a doutrina recentemente documentada em um espetáculo cinematográfico de alta qualidade.

A importância do livro como instrumento maior de propagação das ideias e do conhecimento humano foi enfatizada por Emmanuel na célebre frase - “A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é a sua própria divulgação”. Estimulado pelos efeitos da poderosa capilaridade das letras, o cronista Carlos Romero criou, há mais de 10 anos, o “Sorteio do Livro Espírita”, na Federação. Depois de seu desenlace, a iniciativa continua mantida, como sempre, à base de doações espontâneas, todas as quintas-feiras, nas reuniões públicas e doutrinárias, às 15h00.

O pai de meu pai, José Augusto Romero, que presidiu a Federação Espírita Paraibana por 44 anos consecutivos (uma vida!), também era muito sensível ao conselho de Emmanuel. Havia na Federação, logo no início, uma pequena biblioteca com livros que eram emprestados a quem se interessasse. Como as atividades nas casas espíritas são voluntárias, ficou difícil a manutenção desse formato e a biblioteca se transformou em livraria, que recebeu o nome de “Livraria Léon Denis”, por sugestão de José Augusto. Decerto, pela declarada admiração ao autor do livro que o tornou espírita, “O problema do ser, do destino e da dor”, de Léon Denis. Este pensador e escritor espírita, que, com Gabriel Delanne e Camille Flammarion, formou o célebre trio de franceses que deu brilhante continuidade à obra de Kardec.

A livraria continuou abrigada na Federação por várias décadas até atingir agora o seu apogeu, com a grande reforma empreendida na gestão do presidente Marco Lima. Na semana passada, depois de uma reconfiguração geral de alto nível, foi reaberta ao público.

É sempre uma gratificante notícia quando abrem ou ampliam uma livraria pelo mundo. Com a crescente tendência para a leitura em formatos digitais, o livro impresso sofre perdas irreparáveis no mercado. Problemas de espaço, a praticidade, a velocidade da vida moderna e outras razões como a própria comodidade fazem crescer os adeptos do e-book, padrão de inquestionáveis vantagens de manipulação e armazenamento. Embora sem a magia histórica, sem o cheirinho bom de papel e o aconchegante contato tradicionalmente cativante.

Merece aplausos a iniciativa da Federação Espírita Paraibana na realização desse louvável projeto de reforma de uma livraria que já pertence à história do Espiritismo na Paraíba. Para quem não conhece, fica a dica do endereço: Rua Bento da Gama, 555, ao lado do Posto Maia.