Carlos Romero, meu bom companheiro de viagem


(Davi Lucena)

Meu caso de amor e amizade com Carlos Romero começou em 1994, mais exatamente no mês de abril. Foi o começo de um valioso relacionamento de pai e filho. Estava eu com os meus 27 anos, recém-estabelecido em João Pessoa. Ele nunca gostou de conversar sobre idade e coisas do passado. Quando fomos apresentados, com um aperto de mão, a primeira coisa que dele ouvi foi: “não me chame de senhor”. Jamais obedeci, por causa da reverência que a figura dele me impunha. Naquele mesmo ano, em outubro, fizemos nossa primeira viagem. Nos preparativos, ele brincava dizendo que detestava fazer as malas, coisa que, na verdade, ele jamais experimentou.

Gripado



(Chico Viana)

A gripe é sobretudo uma agressão moral. Você sabe que ela não vai lhe matar, mas o estado a que o reduz é lastimável. Não dá para fazer selfie com o nariz vermelho e os olhos injetados. E o pior é o defluxo que dele emana (prefiro o termo “defluxo” ao escatológico “catarro”).

"Rimar é como dançar"


(Bráulio Tavares)

Todo mundo sabe que no Cemitério das Profecias Apressadas o túmulo dos que preconizaram o fim da poesia com métrica e rima fica a apenas duas aleias de distância do mausoléu dos que decretaram o fim da pintura figurativa.

Modernismos literários à parte, a poesia de forma fixa continua a ser praticada no mundo inteiro, convivendo em paz com as formas mais recentes, que incluem a poesia não-discursiva, a poesia visual, o poema-objeto, o poema-performance, e por aí vai.

Crispim e outras lembranças


(José Nunes)

Há livro para o qual retornamos às suas páginas buscando o prazer da leitura, embalado pela ansiedade. Livros que nos fazem lembrar passagens da vida profissional, porque encurtam a distância entre o autor e nós.

A Civilização e o Vaso Sanitário


(Milton Marques Júnior)

Na situação em que me encontro - e isto é uma reflexão minha, particular - consigo discernir alguns momentos de avanço da civilização.

O momento um, vamos chamar assim, foi quando o homem, no sentido genérico do termo, começou a usar o vaso sanitário.

Sinceramente


(Silvino Lopes)

Morei numa cidade do interior já faz anos, onde circulavam dois jornais que não se davam bem, eram órgãos de partidos que não se entendiam. Hoje tudo é diferente, pois, os partidos se entendem, mesmo quando não se unem. Cada órgão tinha o seu redator político e este marretava.

Cheia de vida


(Germano Romero)

Música cheia de vida, planta cheia de vida, cidade cheia de vida. Cheia de vida, expressão cheia de tudo. De brilho, de viço, de ânimo, de cor, e humor. De boa conversa, contagiante, enérgica, vibrante. Márcia Kaplan era assim. Cheia de vida. De muita vida.

Receptiva, comunicativa, dinâmica, inteligente. E linda. Quando Kaplan chegou aqui, da Argentina, viu Márcia e pronto. Estava traçado o romance em saga. Juntos ousaram, produziram, criaram e recriaram.

A “irredutível integridade” de Ângela Bezerra de Castro


(por Odilon Ribeiro Coutinho)

Creio que há uma relação misteriosa entre o individuo e a paisagem. Quando andei pelas praderias da Mancha, diante das planícies que fugiam, céleres, de minha vista até se perderem no horizonte, demarcadas apenas por uma pequena árvore ou simples arbusto, situados a longo intervalo um do outro, apoderou-se de mim uma sensação de espaço intemporal e o imenso vazio que se fez sentir, comunicou-me a impressão de que o espírito ia, aos poucos se desgarrando da terra

Três poemas


(Linaldo Guedes)

As coisas

as coisas não surgem do mar
a não ser na bahia de todos os cantos
onde todos os afluentes
deságuam negrumes salgados

tambores em versos gregorianos
temperos no auriverde pendão do pelourinho

- e caetano me falando de outros santos que não rezavam agonias
- e das baianas com estranhas liturgias dentro das anáguas

oração na igreja do bonfim: as coisas só surgem se amar.

Gonzaga Rodrigues


(Ana Adelaide Peixoto Tavares)

Nem sei mais quando conheci Gonzaga. Faz tempo! Mas confesso que, só mais recentemente é que leio sua coluna com mais assiduidade. Sempre o encontro nos eventos literários. E também sabia que tinha conhecido meu pai, Romero, nos tempos de outrora.

Gosto do seu estilo de crônica (simples, sofisticada, única e poética), e assim como toda a torcida de todos os times, o seu talento. Confesso que, quase sempre não conheço as pessoas de quem fala nas crônicas, seus lugares queridos, Alagoa Nova, e tantos outros recantos da sua prodigiosa memória. Pouco importa. Para quem tem aquele saber, aquela facilidade poética das esquinas, seus amores pela cidade, pelos amigos, e pela vida, nem se precisa conhecer os atores. Um passeio pelas suas vírgulas, já basta.